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Cidade - Falta infra-estrutura

Chuvas transformam salvador num verdadeiro caos de inundações
Data: 01/07/2008 Revista > Edição 24 > Pag. 14


 

 

 


 

 

Transtornos como alagamentos, inundações e deslizamentos, que sazonalmente atingem Salvador em períodos de chuva, poderão tornar-se cada vez mais freqüentes nos próximos anos. Tal prognóstico surge a partir da combinação de dois fenômentos distintos: a intensifi cação de torrentes na cidade devido às mudanças climáticas e a inexistência de uma infra-estrutura urbana adequada para suportar tais eventos. Apesar dos prognósticos negativos, especialistas acreditam que o problema tem solução. Seriam necessários investimentos em obras e a execução de projetos capazes de corrigir as distorções em áreas problemáticas, vencendo gargalos e dando vazão à drenagem de águas em pontos considerados críticos.

A ocorrência de chuvas cada vez mais intensas, com altas precipitações pluviométricas concentradas em poucas horas, é um dos efeitos mais visíveis do que vem sendo chamado de “aquecimento global”. isso não quer dizer que haverá mais chuvas na cidade: signifi ca que poderá haver maior desequilíbrio quanto à intensidade pluviométrica, com chuvas mais raras, porém mais densas.

Segundo dados do instituto Nacional de Meteorologia (inmet), de 2007 até este primeiro semestre de 2008, o volume mensal de chuvas que caem na cidade fi cou abaixo da média climatológica histórica, com exceção dos meses de fevereiro (2007/2008), que sustentaram índices superiores ao patamar normal. o problema estaria justamente nas disparidades por trás das médias. Como explica a meteorologista do instituto, Cláudia da Silva, “o que sabemos é que os sistemas meteorológicos serão cada vez mais intensos e freqüentes. No caso das grandes cidades, as chuvas de maior volume em poucas horas já são uma realidade, incluindo Salvador, onde chegamos a ter 130,8 mm no dia 29 de fevereiro de 2008.”

Na capital baiana, os transtornos causados pelas chuvas são conseqüência de diversos fatores técnicos ainda não solucionados. Dentre eles, trechos de gargalo cuja vazão é limitada (por exemplo, o final da Avenida Centenário, onde ocorre a redução do diâmetro da tubulação – atualmente em obras); captação inadequada (como é caso de trechos no Vale do Bonocô, onde acontece acúmulo de água nas pistas laterais); projetos inacabados (por exemplo, as obras de entroncamento das aduelas entre Vasco da Gama e o Vale do ogunjá, ou um canal em San Martin) e ainda a falta de limpeza/manutenção adequada das “bocas-de-lobo” e caixas de captação.

Segundo o chefe da gerência de operações da Superintendência de Manutenção e Conservação da Cidade (Sumac), engenheiro civil Osvaldo Cruz, os efeitos do desenvolvimento urbano desordenado de Salvador entre os anos 70 e 90 são a origem de muitos desses problemas. “Ao longo dos anos, aumentaram as áreas impermeáveis do município, ocasionando freqüentes inundações em função também do sistema de drenagem existente. Em grande parte da cidade, essas redes foram mantidas, estando hoje submetidas a vazões muito maiores para as quais foram dimensionadas”, explica. Cruz avalia ainda que as implantações de redes de água, esgoto e telefonia também trouxeram uma série de problemas que vão desde o seccionamento das redes de drenagem até a diminuição dos diâmetros em alguns pontos.

Para o engenheiro civil Jorge Fortes Filho, professor da Universidade Católica de Salvador e da Universidade Estadual de Feira de Santana, é possível superar esse quadro, lançando mão de soluções técnicas já disponíveis que necessitam do empenho do poder público em empregá-las. “Consideramos que o nível de excelência da tecnologia da engenharia nacional e o conhecimento dos engenheiros brasileiros, e dos baianos em particular, permitem tornar Salvador bem menos sujeita aos problemas que ocorrem durante o inverno. Evidentemente, é necessário haver vontade política para tomar as ações necessárias, de modo a transformar os projetos em obras e, o que é também essencial, haver disponibilidade de recursos monetários para os órgãos públicos poderem contratar profissionais e construtoras”, aponta.

Embora as peculiaridades da topografia acidentada da capital possam parecer agravantes, do ponto de vista técnico é, ao contrário, um elemento favorável. Como explica o coordenador da Câmara de Engenharia Civil do Crea-BA, Enéas Cardoso de Almeida Filho, as cumeadas nunca inundam e os vales são ideais para grandes canais com suas drenagens naturais. o engenheiro aponta ainda a importância de preservar determinados acidentes geográficos, cuja função seria ajudar no escoamento das águas.

“Existiam grandes lagoas e diques, dique do Ladrão, lagoas em itapuã, reservatórios naturais cuja função seria acumular água durante os picos e escoando depois. Funcionavam como pontos de equilíbrio. Com o aterro, esta função cessa e o tempo de concentração reduz. Em outras palavras, a concentração da água ocorre mais rapidamente e a drenagem, que era suficiente, deixa de ser”, lamenta.

Caso a cidade não se prepare para enfrentar um cenário climático cada vez mais instável, isso poderá ter diversas repercussões no dia-a-dia dos cidadãos. Além da dimensão estrutural, com a paralisação total de grandes vias arteriais, gerando congestionamentos, inundando garagens e travando a capital em dias de chuva, há ainda efeitos colaterais do problema como, por exemplo, a saúde pública. “Pelas características topográficas da cidade, pelo seu crescimento desordenado e o grande número de construções erguidas sem quase nenhuma técnica de engenharia, a população moradora das áreas sem infra-estrutura está sujeita a doenças infecto-contagiosas, a perda do imóvel, de bens materiais, do emprego e, em alguns casos, da própria vida”, alerta o subcoordenador operacional da Defesa Civil da Prefeitura de Salvador, engenheiro Francisco Costa Júnior. Para ele, não há um crescimento no número de ocorrências, principalmente devido a algumas obras da prefeitura e ao trabalho da Defesa Civil, que vem intensificando o contato direto com os moradores das áreas de risco, orientando a população.

Atualmente, a Prefeitura de Salvador dispõe de um mapeamento de 44 pontos de inundação considerados prioritários e que estão previstos para serem atendidos em cronograma de obras da Gerência de Operação da Sumac. “A decisão de elaborar esta avaliação no tecido urbano e nos trechos da cidade, denominados pontos críticos de alagamento, surgiu da flagrante necessidade de resolver definitivamente os problemas dessa ordem, que já perduram por muitos anos”, explicam os engenheiros Fernando Sampaio e Osvaldo Cruz em relatório assinado conjuntamente.

Para o professor Jorge Fortes, a solução passa necessariamente por um melhor planejamento ao longo dos anos e maior aplicação de recursos. Fortes lembra que não se deve culpar as chuvas intensas, tampouco a topografia da cidade, pelos transtornos que ocorrem todo ano, pois estes fatores já são considerados na elaboração dos projetos de drenagem e na estabilidade de taludes. Seria “pelas dificuldades financeiras sofridas pela nação nas últimas décadas, Salvador precisará de investimento maciço em planejamento, projetos e obras durante vários anos para resolver os problemas, não só os que nos importunam nos dias chuvosos, mas também aqueles que ocorrem ao longo de todo o ano”, avalia.

7 pontos críticos

Avenida Mário Leal Ferreira – Vale do Bonocô•
Dique do Tororó/Vale dos Barris (entrada da Lapa)•
Avenida ACM•
Avenida Juracy Magalhães Jr.•
Vale do Ogunjá•
Av.Centenário•
Avenida Vasco da Gama•

 

 Por Sivaldo Pereira

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