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Engenharia à distância - Ensino de risco

Baixa qualidade compromete o desenvolvimento do país
Data: 05/05/2011 Revista > Edição 35

Com uma demanda da ordem de 60 mil engenheiros/ano, o Brasil forma apenas 32 mil desses profissionais. O prognóstico é que, em 2012, o déficit de mão-de-obra qualificada atinja 150 mil. E, em se confirmando o crescimento do PIB igual ou acima de 5%/ano até 2022, a formação de engenheiros permanecerá insuficiente. É o que aponta o estudo Escassez de engenheiros: realmente um risco, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Soma-se a essa realidade sombria a crescente evasão (50%) nos cursos presenciais de Engenharia e o aumento da oferta de vagas de ensino a distância. Um estudo da Capes realizado há cerca de três anos já apontava que, das 198 mil vagas disponíveis nos vestibulares de Engenharia, apenas 115 mil foram preenchidas. Outro dado preocupante revelado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC) mostra que cerca dos 1.200 alunos matriculados em cursos de Engenharia a distância optam pelas modalidades ambiental, civil, de produção e elétrica – exatamente áreas mais requisitadas pelo mercado –, conforme levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Preocupado com essa situação, em fevereiro deste ano, o Crea-BA elaborou manifesto contrário à formação a distância, considerando incondicional e imprescindível a aplicação de aulas práticas, de campo e laboratório nos cursos de Engenharia. O documento, que vem recebendo inúmeras manifestações de apoio, reitera que a baixa qualidade do ensino compromete o desenvolvimento do País. Outro alerta do manifesto é para o fato de que não basta formar, é preciso qualificar.
“A falta de planejamento está entre os fatores responsáveis não apenas pela escassez de profissionais, mas também pela deficiência na qualificação”, afirma o conselheiro da Câmara de Engenharia Civil do Crea, Edgarde Cerqueira. Segundo ele, é preciso aliar o aumento do quantitativo de profissionais à qualidade do conteúdo, do estudo e da técnica, sem imediatismos. Só assim o País fará frente aos desafios impostos pelo avanço tecnológico.
A reestruturação do ensino secundário brasileiro, incapaz de preparar o estudante para o ingresso na academia, é fator determinante para a melhoria da formação dos futuros profissionais, avalia o professor da Escola Politécnica da Ufba e segundo vice-presidente do Crea-BA, engenheiro Caiuby Costa Alves. Para o engenheiro, outro complicador foram as mudanças feitas pelo Ministério da Educação a partir da década de 70, responsáveis pela fragmentação na base da formação do engenheiro. Deixou-se de fazer vestibular para o curso de Engenharia e sim para modalidade da Engenharia. “Durante esse período, lutou-se pela Engenharia Tronco e pela residência técnica, propostas que foram aprovadas no VI Congresso Nacional de Profissionais, vide a Carta de Brasília e que, infelizmente, não se colocou em prática”, explica Alves.
Ao admitir a dificuldade dos alunos nas disciplinas básicas do curso, o engenheiro civil e diretor da Escola Politécnica da Ufba, Luis Edmundo Prado de Campos, propõe que as escolas técnicas e de Engenharia incentivem o estudante por meio de recursos atualizados e da interdisciplinaridade. “Temos hoje um ensino do século XIX, professor do século XX e aluno do século XXI. Precisamos dinamizar o ensino e formar profissionais qualificados”, disse.
Defensor da Engenharia Tronco, o professor Luis Edmundo propõe a redução para quatro anos nos cursos e que, só após esse período, os estudantes optem pela modalidade que pretendem atuar. Em paralelo, diversas parcerias para o fortalecimento do ensino devem ser realizadas com instituições públicas ou privadas, no direcionamento do bem-estar da sociedade. “Sem o florescimento tecnológico da nação brasileira, estaremos condenados para sempre a uma inserção subalterna no concerto das nações. Estaremos condenados a ser meros usuários da tecnologia e não os geradores dela”, complementa o engenheiro Caiuby Alves.
Outra preocupação foi levantada pelo diretor administrativo do Crea-BA, engenheiro Enéas Cardoso Filho. Segundo ele, os estudantes de Engenharia não cursam disciplinas optativas importantes, a exemplo de Ferrovias, Portos e Aeroportos, mesmo sabendo que seu registro profissional conterá restrição de atuação. “A consequência é que estamos formando engenheiros com limitações. Se continuar esta tendência, quem vai projetar ou executar com qualidade estas obras? Parece que a culpa é a vontade de formar logo”, ressalta.
Ainda como agravante, Enéas Cardoso aponta a desmobilização dos órgãos de fiscalização e empresas de consultoria e projeto do País devido à Lei de Licitações (8.666/2003), que admite contratação baseada em projeto básico, exigindo, ao mesmo tempo, orçamento preciso e detalhado. “Imagine a conjunção entre profissionais mal formados, falta ou deficiência de fiscalização, falta de empresas especializadas, com editais baseados no menor preço, montados em orçamentos ditos exatos, feitos em cima de projetos básicos? E ainda querem saber a causa da má qualidade e corrupção das obras públicas!”.
Divulgado no final do ano passado, o estudo da Unesco “Engenharia: Temas, Desafios e Oportunidades para o Desenvolvimento” corrobora o fato de que a deficiência mundial no número de engenheiros é vista como uma ameaça ao desenvolvimento. Até mesmo nos países avançados, cada vez menos jovens se interessam pela área, considerada técnica demais, além de mal remunerada. Só para se ter uma dimensão mundial do problema, em países como Japão, Holanda, Noruega e Coreia do Sul, o número de matriculados caiu até 10%.

Números

1. 200 estudantes cursam engenharia à distância
475 mil é o número de engenheiros fora do mercado
Para cada 2 engenheiros na ativa, 5 atuam em outras áreas ou estão fora do mercado
50 mil estrangeiros vieram trabalhar no Brasil em 2010

Por: Cleide Nunes

 

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