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Entrevista - A genialidade de Milton Santos

Maria Adélia de Souza
Data: 01/07/2011 Revista > Edição 36 > Pag. 12

 Considerada referência no estudo da obra do professor Milton Santos, a doutora Maria Adélia de Souza esteve em Salvador para participar do evento que marcou os dez anos do falecimento do geógrafo baiano. Professora titular aposentada da USP, ela desenvolve pesquisas nos campos das Geografias da Desigualdade, do Planejamento Urbano e Regional, Epistemologia e Teoria da Geografia e Uso do Território Brasileiro. A seguir, Maria Adélia fala sobre a genialidade do principal geógrafo brasileiro e aponta os desafios da Geografia no Brasil.

 

 

 RC - Para a senhora, qual o desafio da geografia hoje?
MA - O desafio da geografia hoje é menor do que o desafio dos geógrafos. Nós temos o legado do professor Milton Santos, que fez a grande revolução da geografia no século XX, revisitou e reconstituiu a disciplina, preparando-a para que os geógrafos, por meio do edifício metodológico, pudessem entender o mundo do presente. Mas os geógrafos estão despreparados. Lamentavelmente, a geografia que se ensina no Brasil e no mundo é a mesma criada no início do século XX, esboçada no final do século XIX. Nós vivemos, ainda, a dicotomia entregeografia física e geografia humana. É complicado entender este procedimento, sobretudo no que se refere ao Crea. Como certificar duas formações que são completamente diferentes? 

RC – Que discussão precisa ser feita?
MA – A geografia é uma ciência social que estuda a vida da sociedade e dos seres humanos relacionando-se com o planeta ou com a natureza, se preferirem. Seu objetivo não é estudar forma de relevo, característica de solo e a classificação de clima. Mas tudo isso interfere na construção daquilo que o professor Milton chama de meio técnico, científico, informacional, que é sinônimo de espaço geográfico no presente. Esta é a discussão que os geógrafos não conseguem fazer por falta de preparo, e, quando tentam, vira uma espécie de bingo: eu sou pela física, o outro é pela humana. A discussão precisa ser feita do ponto de vista epistemológico.

RC – Qual o papel da universidade nesse contexto?
MA – Ter coragem de rever e conceituar epistemologicamente a geografia, compreendendo o seu objeto. É preciso  entender que a geografia pode formar tanto professores, profissionais liberais, quanto cientistas e técnicos. Mas isto tudo se empobrece no falso dilema da Geografia Física e Geografia Humana. Licenciatura misturada com bacharelado gera uma confusão que a gente precisa peneirar. 

RC – Por que a obra de Milton Santos permanece atual?
MA – A proposta dele não é restrita à Geografia. Ele tem uma preocupação interdisciplinar, cujo conceito de espaço geográfico é proposto como instância social, tão importante quanto a política, a economia e a cultura. O conceito de espaço geográfico do professor Milton é equivalente ao conceito de modo de produção de Marx para a economia política. Ninguém consegue entender essa genialidade. Ele é o único intelectual geógrafo ao sul do Equador que mereceu um verbete na Enciclopédia Britânica de Geografia Humana, lançada em 2010, pela holandesa Elsevier, uma das maiores editoras do mundo. Eu tive o privilégio
de redigir este verbete.

RC – Por que Milton Santos definiu o mundo do presente como sendo uma fábula?
MA – Hoje nós temos facilidades tecnológicas, Ipad, Iphone, avião a jato, etc. É fábula porque o acesso a essa tecnologia não é permitido a todos. Mas a mídia faz você pensar que tudo aquilo é seu. O professor faz uma distinção entre o cidadão e o consumidor. O cidadão não existe, mas o consumidor existe, é uma potencialidade, porque os sistemas decrédito facilitam o acesso de qualquer um a qualquer coisa. As pessoas não percebem o quanto isso é perverso. Ele tem uma frase genial para explicitar esse seupensamento: somos cidadãos imperfeitos e consumidores mais que perfeitos. 

RC – Nessa concepção, qual a contradição da tecnologia?
MA – A técnica e a tecnologia carregam uma contradição em si mesmas que é aquela de requerer novos processos que, por sua vez, exigem o aprimoramento da inteligência e da produção. Não adianta você ter tecnologias ultra-avançadas se cada vez menos pessoas podem acessá-las, além das sérias implicações que elas têm no mundo do trabalho. Temos desemprego porque os processos estão cada vez mais tecnificados, sofisticados e elaborados. Estamos assistindo à antieducação: educação instrumentalizada pela técnica.
 
RC – A senhora é referência na pesquisa sobre a dimensão do lugar. O que Milton Santos dizia sobre isso?
MA – O lugar é o espaço da minha existência, e ela não tem apenas a dimensão física. Ou seja, você nasce no Brasil, está inserido na sociedade brasileira. Esta historicização do uso é o que o professor chama de território usado. O que dá vida às formas são as suas funções, a sua estrutura, a sua função e o seu processo. Ele vai definir o que é o lugar a partir do território usado. O lugar expresso pelo uso é o espaço do acontecer solidário. Lugar não é sinônimo de cidade, nem de bairro, nem de toponímias. Essa visão torna mais complexo e refinado o estudo do lugar. 

RC – As potencialidades das teorias de MS foram exploradas?
MA – Não. Milton Santos é citado, mas não é compreendido. Ficam tentando encaixá-lo: marxista, não marxista, estruturalista, não estruturalista. O   compromisso da obra dele é o de entender o mundo do presente, tomando como ponto de partida o direito de existir com dignidade.

RC – Mas o Brasil estuda Milton Santos?
MA – O lugar em que a obra do Milton fervilha mais é no Nordeste brasileiro. Ele não é lido na USP, tampouco no Sul. Ele não é assimilado institucionalmente nos programas e nos cursos de Geografia da maioria das universidades brasileiras. A Bahia também não lhe dá o merecido reconhecimento. 

RC – Fale sobre o enfoque da geografia na Universidade Federal da Integração Latino Americana (UNILA), que a senhora ajudou a criar.
MA – Entendemos, por sugestão de Milton Santos, que a Geografia seja compreendida como uma Filosofia das Técnicas. Vamos habilitar geógrafos para que sejam capazes de complementar uma discussão estratégica que falta aos arquitetos e aos engenheiros. Construir cidades, estradas e aeroportos é papel do engenheiro. Nós, geógrafos, estamos alijados desta discussão, na qual deveríamos ter uma participação importantíssima, porque a estratégica das necessidades da dimensão, da localização destes equipamentos, grandes ou menores, e a dimensão social disso, quem tem que dar é o geógrafo.
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