Em 11 de dezembro, o País comemora a regulamentação da Engenharia e da Arquitetura, profissões responsáveis por algo em torno de 70% do PIB brasileiro. Nesta reportagem, levantamos questões ligadas à valorização profissional e aos aspectos pertinentes ao mercado e à formação de engenheiros e arquitetos. Nossa proposta é refletir sobre os caminhos e alternativas para as áreas que, embora distintas na sua concepção, se completam na construção de uma nação cada vez mais sustentável e inclusiva.
A valorização dos profissionais da Engenharia e da Arquitetura depende, basicamente, de uma economia onde os investimentos na área de infra-estrutura estejam retomados. Não há valorização possível num mercado restrito como o que se apresenta nos últimos 30 anos. Para os especialistas, o desafio é exatamente a construção de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável. Esse é o enfoque do Sistema Confea/Crea com o projeto Pensar o Brasil, Construir o futuro da Nação. “Se não tivermos um processo voltado para a perspectiva do desenvolvimento, continuaremos a ter dificuldades em valorizar não só as oportunidades no mercado de trabalho, como a remuneração desses profissionais”, defende Marco Túlio de Melo, presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea).
Para se ter uma idéia da análise feita pelo engenheiro, basta ver que o Brasil das décadas de 30, 50 e até 70 possuía um projeto de desenvolvimento nacional que provocava a disputa pelos profissionais do segmento tecnológico, muitos deles buscados ainda nos bancos das faculdades. Havia um mercado de trabalho em ascensão derivado de uma economia pujante. “É esse o grande desafio que se impõe agora”, avalia Túlio de Melo. Outro aspecto preocupante neste início de século é o fato de que cerca de 40% dos engenheiros e arquitetos que se formam não seguem a profissão. O que coloca o País na contramão, uma vez que os países desenvolvidos priorizam a formação na área tecnológica.
O diretor da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, engenheiro civil e professor Luís Edmundo Prado de Campos, confirma a falta de profissionais e aponta alternativas. “Precisamos estimular o interesse pela área tecnológica. O MEC promove palestras de incentivo e apresentamos propostas no sentido de sensibilizar professores e alunos do 2º grau para a importância da Engenharia no desenvolvimento social e tecnológico do País”, propõe.
Por outro lado, o aquecimento da economia nacional acena para um cenário promissor não apenas na construção civil (com os investimentos sobretudo no mercado imobiliário). As exportações em alta estimulam a transação de produtos e serviços de telecomunicações, exploração de petróleo, além da automação industrial, que tem na indústria da mecatrônica uma das especialidades mais promissoras da Engenharia.
Ramo que mistura mecânica, elétrica, eletrônica, computação e controle, a Engenharia Mecatrônica desponta como a menina dos olhos do setor tecnológico. Automatizar é a palavra de ordem para os que se dedicam a tornar processos de produção mais eficientes e econômicos.
Cerca de 95% dos profissionais que se formam na área atuam em manutenção, lubrificação, projetos de veículos e de aeronaves. “O mercado está em expansão, sobretudo porque as empresas estão automatizando seus processos na tentativa de reduzir custos e gerar mais competitividade no setor industrial. É grande a procura nos setores de metalurgia, siderurgia e plásticos”, enumera o coordenador do único curso técnico de mecatrônica na Bahia, engenheiro Antônio Gabriel Almeida, do Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia, (Cimatec/Senai). Contudo, faltam profissionais no mercado. Dos 40 alunos que integram uma turma iniciante, apenas 15 concluem. Um exemplo dessa ascensão é o caso da estudante de engenharia elétrica Jôse Neri, que logo após se formar em mecatrônica, foi contratada por um laboratório de grandezas elétricas e temperaturas. “Minha expectativa é aproveitar o máximo a faculdade e fazer um mestrado nessa área”, empolga-se.
A exigência cada vez maior de processos produtivos ambientalmente menos agressivos e a busca por cidades sustentáveis estimula o avanço das modalidades ligadas à área ambiental e de produção de alimentos. A ênfase é dada também aos projetos de cunho social. Não faltam exemplos da atuação de engenheiros e arquitetos trabalhando pelo desenvolvimento tecnológico de cunho social. Esse é um dos focos do Curso de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Feira de Santana, com a implantação do Escritório Público de Engenharia (Eptec). De acordo com o engenheiro Gerinaldo Costa Alves, coordenador do Escritório e vice-presidente do Crea, é preciso que os estudantes contribuam para modificar a realidade a partir dos pontos básicos tratados dentro e fora da sala de aula. “A tarefa consiste em prepará-los para a busca de soluções exeqüíveis e que atendam os problemas da sociedade, tanto no sentido da construção, como o da reconstrução do cotidiano popular”.
Alunos do 3º semestre de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Ufba, Almir Andrade, Henrique Vasconcelos e Victor Schirmer concordam quanto à importância do aluno, já na faculdade, trabalhar com aspectos pertinentes às necessidades sociais. “Além de adquirirmos experiência, ajudamos a quem precisa”, pontua Almir. “Esperamos que, com o novo governo, essas propostas possam acontecer”, espera Victor. “O que queremos é espaço para isso e é por isso que estamos na Universidade”, completa Henrique.
Testemunha de que tais mudanças possam ocorrer, a engenheira civil Luzia Quintas Radel conta com a experiência de cinco décadas para enxergar a evolução da Engenharia. Ao mesmo tempo, ela é um exemplo claro do quanto o Brasil prioriza mão-de-obra jovem em detrimento da contribuição dos mais velhos. “Aposentei-me aos 70 anos porque me colocaram para fora da empresa”, critica a ex-funcionária da Embasa, onde trabalhou por mais de 40 anos.
Especificamente no campo da Arquitetura, cuja atuação vai desde o planejamento urbano, passando por projetos de edificações, espaços públicos e arquitetura de interior, os problemas se aproximam do que encontramos na Engenharia.
Apesar de um mercado amplo, a já citada crise de investimentos afeta o mercado. Entre as queixas está o valor cada vez mais reduzido dos projetos e a falta de políticas eficazes de valorização do custo das obras.
Um dos entraves é a Lei 8666/93, que institui normas para licitações e contratos da Administração Pública. Na avaliação do presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, seção Bahia, Paulo Ormindo de Azevedo, os projetos de Arquitetura estão desvalorizados, dentre outros fatores, porque o próprio governo federal privilegia o menor preço e não a qualidade nos processos licitatórios. “O papel do governo é promover concursos para expandir o mercado de Arquitetura. Enquanto entidades de classe, fazemos esforços no sentido de esclarecer as autoridades e as empresas de que a revisão da Lei de Licitações é fundamental”, alerta Ormindo.
Diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, o professor Heliodoro Sampaio mostra-se preocupado com a situação, sobretudo com os jovens arquitetos e estudantes de Arquitetura. Ele acredita que uma grande massa de jovens está se formando sem perspectivas. “Temos hoje um mercado potencial que não atende ao mercado real. Faltam ações concretas e investimentos públicos”, lamenta Sampaio.
Somadas à crônica falta de investimentos, a competição acirrada e o número expressivo de profissionais fazem com que muitos projetos sejam disputados como mercadorias com significativas perdas remunerativas. “Estão transformando os jovens arquitetos em concretos de materiais de construção. Existem arquitetos que admitem ganhar mais especificando revestimento de material do que com o preço do projeto que criou. Do ponto de vista ético, essa é a crise mais grave no mercado de trabalho em Arquitetura”, analisa o diretor da Faufba.
Concluinte do curso de Arquitetura da Ufba, Aline Urbano Moraes defende a união dos arquitetos como meio de se resgatar a valorização profissional. “Recebi convite para colaborar num projeto de construção de um hospital, cuja planta foi feita por um médico”, conta.
A preocupação da estudante é compartilhada pela experiente arquiteta Zélia Almeida. Com mais de meio século de formada, a arquiteta é contundente ao afirmar que o mercado esta uma “bagunça”. “Não faço projetos só porque estou aposentada e sim porque não tem trabalho mesmo, nem perspectiva de tê-lo”. Veterana no uso da prancheta, régua e compasso, Zélia Almeida não se conforma com a desvalorização profissional e com a mudança da relação arquiteto/cliente. “Primeiro, não concordo com a forma como os projetos são feitos. Qualquer pessoa pode desenhar no computador e chamar isso de projeto. Não há mais a troca de informação e pesquisa de campo entre o arquiteto e o interessado pela obra. Isso é desigual porque o computador não pensa sozinho no desenvolvimento de uma sociedade”.
SUS da arquitetura
Outro projeto importante para a área da arquitetura acaba de ser aprovado. Trata-se da Lei de Assistência Técnica à Habitação de Interesse Social 6.981/06, criado pelo deputado federal Zezéu Ribeiro, conseqüência de um empenho do Sistema Confea/Crea, instituições e entidades de classe. A lei assegura às famílias de baixa renda assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social.
Na avaliação do arquiteto Carlos Ubiratã de Souza, coordenador da Câmara de Arquitetura do Crea-BA, a parceria entre governo, instituições de ensino e sociedade é fundamental no desenvolvimento desses projetos que passam, antes de tudo, pela valorização profissional. “Entre 60% a 70% dos arquitetos estão ligados a órgãos públicos, o que contribui para a desvalorização, já que ele não é bem remunerado”, avaliou o coordenador.
Enquanto a Lei não sai do papel, o estudante Miguel Carlos Júnior, do segundo semestre de Arquitetura da Ufba, planeja atuar em projetos de arquitetura pública. “As pessoas constroem habitações não planejadas e desprotegidas. Não adianta ficarmos em sala de aula se não levarmos o nosso conhecimento, mínimo que seja, para a prática”, indaga Miguel.
Diversificar é preciso
Quando a arquiteta Liza Magalhães se formou, na década de 90, havia um campo de trabalho maior para que o profissional de arquitetura atuasse individualmente no mercado. Atualmente, a competitividade leva às associações entre profissionais de diferentes áreas. “Se associar é uma conseqüência natural, pois com a quantidade cada vez maior de informações a gerenciar, softwares a dominar, material a produzir, dentre outras necessidades, seria inviável conduzir tudo sozinha”.
A arquiteta avalia que o escritório permite, além do aproveitamento da estrutura, a troca de idéias na concepção dos projetos, o que resulta na melhoria da qualidade dos produtos ofertados aos clientes.