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Profissões - Mercado, formação e valorização

Investimentos públicos e desenvolvimento sustentável são apontados como fatores fundamentais para a recuperação do mercado para enenheiros e arquitetos
Data: 01/01/2007 Revista > Edição 18 > Pag. 14



Em 11 de dezembro, o País comemora a regulamentação da Engenharia e da Arquitetura, profissões responsáveis por algo em torno de 70% do PIB brasileiro. Nesta reportagem, levantamos questões ligadas à valorização profissional e aos aspectos pertinentes ao mercado e à formação de engenheiros e arquitetos. Nossa proposta é refletir sobre os caminhos e alternativas para as áreas que, embora distintas na sua concepção, se completam na construção de uma nação cada vez mais sustentável e inclusiva.

A valorização dos profissionais da Engenharia e da Arquitetura depende, basicamente, de uma economia onde os investimentos na área de infra-estrutura estejam retomados. Não há valorização possível num mercado restrito como o que se apresenta nos últimos 30 anos. Para os especialistas, o desafio é exatamente a construção de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável. Esse é o enfoque do Sistema Confea/Crea com o projeto Pensar o Brasil, Construir o futuro da Nação. “Se não tivermos um processo voltado para a perspectiva do desenvolvimento, continuaremos a ter dificuldades em valorizar não só as oportunidades no mercado de trabalho, como a remuneração desses profissionais”, defende Marco Túlio de Melo, presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea).

Para se ter uma idéia da análise feita pelo engenheiro, basta ver que o Brasil das décadas de 30, 50 e até 70 possuía um projeto de desenvolvimento nacional que provocava a disputa pelos profissionais do segmento tecnológico, muitos deles buscados ainda nos bancos das faculdades. Havia um mercado de trabalho em ascensão derivado de uma economia pujante. “É esse o grande desafio que se impõe agora”, avalia Túlio de Melo. Outro aspecto preocupante neste início de século é o fato de que cerca de 40% dos engenheiros e arquitetos que se formam não seguem a profissão. O que coloca o País na contramão, uma vez que os países desenvolvidos priorizam a formação na área tecnológica.

O diretor da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, engenheiro civil e professor Luís Edmundo Prado de Campos, confirma a falta de profissionais e aponta alternativas. “Precisamos estimular o interesse pela área tecnológica. O MEC promove palestras de incentivo e apresentamos propostas no sentido de sensibilizar professores e alunos do 2º grau para a importância da Engenharia no desenvolvimento social e tecnológico do País”, propõe.

Por outro lado, o aquecimento da economia nacional acena para um cenário promissor não apenas na construção civil (com os investimentos sobretudo no mercado imobiliário). As exportações em alta estimulam a transação de produtos e serviços de telecomunicações, exploração de petróleo, além da automação industrial, que tem na indústria da mecatrônica uma das especialidades mais promissoras da Engenharia.

Ramo que mistura mecânica, elétrica, eletrônica, computação e controle, a Engenharia Mecatrônica desponta como a menina dos olhos do setor tecnológico. Automatizar é a palavra de ordem para os que se dedicam a tornar processos de produção mais eficientes e econômicos.

Cerca de 95% dos profissionais que se formam na área atuam em manutenção, lubrificação, projetos de veículos e de aeronaves. “O mercado está em expansão, sobretudo porque as empresas estão automatizando seus processos na tentativa de reduzir custos e gerar mais competitividade no setor industrial. É grande a procura nos setores de metalurgia, siderurgia e plásticos”, enumera o coordenador do único curso técnico de mecatrônica na Bahia, engenheiro Antônio Gabriel Almeida, do Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia, (Cimatec/Senai). Contudo, faltam profissionais no mercado. Dos 40 alunos que integram uma turma iniciante, apenas 15 concluem. Um exemplo dessa ascensão é o caso da estudante de engenharia elétrica Jôse Neri, que logo após se formar em mecatrônica, foi contratada por um laboratório de grandezas elétricas e temperaturas. “Minha expectativa é aproveitar o máximo a faculdade e fazer um mestrado nessa área”, empolga-se.

A exigência cada vez maior de processos produtivos ambientalmente menos agressivos e a busca por cidades sustentáveis estimula o avanço das modalidades ligadas à área ambiental e de produção de alimentos. A ênfase é dada também aos projetos de cunho social. Não faltam exemplos da atuação de engenheiros e arquitetos trabalhando pelo desenvolvimento tecnológico de cunho social. Esse é um dos focos do Curso de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Feira de Santana, com a implantação do Escritório Público de Engenharia (Eptec). De acordo com o engenheiro Gerinaldo Costa Alves, coordenador do Escritório e vice-presidente do Crea, é preciso que os estudantes contribuam para modificar a realidade a partir dos pontos básicos tratados dentro e fora da sala de aula. “A tarefa consiste em prepará-los para a busca de soluções exeqüíveis e que atendam os problemas da sociedade, tanto no sentido da construção, como o da reconstrução do cotidiano popular”.

Alunos do 3º semestre de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Ufba, Almir Andrade, Henrique Vasconcelos e Victor Schirmer concordam quanto à importância do aluno, já na faculdade, trabalhar com aspectos pertinentes às necessidades sociais. “Além de adquirirmos experiência, ajudamos a quem precisa”, pontua Almir. “Esperamos que, com o novo governo, essas propostas possam acontecer”, espera Victor. “O que queremos é espaço para isso e é por isso que estamos na Universidade”, completa Henrique.

Testemunha de que tais mudanças possam ocorrer, a engenheira civil Luzia Quintas Radel conta com a experiência de cinco décadas para enxergar a evolução da Engenharia. Ao mesmo tempo, ela é um exemplo claro do quanto o Brasil prioriza mão-de-obra jovem em detrimento da contribuição dos mais velhos. “Aposentei-me aos 70 anos porque me colocaram para fora da empresa”, critica a ex-funcionária da Embasa, onde trabalhou por mais de 40 anos.

Especificamente no campo da Arquitetura, cuja atuação vai desde o planejamento urbano, passando por projetos de edificações, espaços públicos e arquitetura de interior, os problemas se aproximam do que encontramos na Engenharia.

Apesar de um mercado amplo, a já citada crise de investimentos afeta o mercado. Entre as queixas está o valor cada vez mais reduzido dos projetos e a falta de políticas eficazes de valorização do custo das obras.

Um dos entraves é a Lei 8666/93, que institui normas para licitações e contratos da Administração Pública. Na avaliação do presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, seção Bahia, Paulo Ormindo de Azevedo, os projetos de Arquitetura estão desvalorizados, dentre outros fatores, porque o próprio governo federal privilegia o menor preço e não a qualidade nos processos licitatórios. “O papel do governo é promover concursos para expandir o mercado de Arquitetura. Enquanto entidades de classe, fazemos esforços no sentido de esclarecer as autoridades e as empresas de que a revisão da Lei de Licitações é fundamental”, alerta Ormindo.

Diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, o professor Heliodoro Sampaio mostra-se preocupado com a situação, sobretudo com os jovens arquitetos e estudantes de Arquitetura. Ele acredita que uma grande massa de jovens está se formando sem perspectivas. “Temos hoje um mercado potencial que não atende ao mercado real. Faltam ações concretas e investimentos públicos”, lamenta Sampaio.

Somadas à crônica falta de investimentos, a competição acirrada e o número expressivo de profissionais fazem com que muitos projetos sejam disputados como mercadorias com significativas perdas remunerativas. “Estão transformando os jovens arquitetos em concretos de materiais de construção. Existem arquitetos que admitem ganhar mais especificando revestimento de material do que com o preço do projeto que criou. Do ponto de vista ético, essa é a crise mais grave no mercado de trabalho em Arquitetura”, analisa o diretor da Faufba.

Concluinte do curso de Arquitetura da Ufba, Aline Urbano Moraes defende a união dos arquitetos como meio de se resgatar a valorização profissional. “Recebi convite para colaborar num projeto de construção de um hospital, cuja planta foi feita por um médico”, conta.

A preocupação da estudante é compartilhada pela experiente arquiteta Zélia Almeida. Com mais de meio século de formada, a arquiteta é contundente ao afirmar que o mercado esta uma “bagunça”. “Não faço projetos só porque estou aposentada e sim porque não tem trabalho mesmo, nem perspectiva de tê-lo”. Veterana no uso da prancheta, régua e compasso, Zélia Almeida não se conforma com a desvalorização profissional e com a mudança da relação arquiteto/cliente. “Primeiro, não concordo com a forma como os projetos são feitos. Qualquer pessoa pode desenhar no computador e chamar isso de projeto. Não há mais a troca de informação e pesquisa de campo entre o arquiteto e o interessado pela obra. Isso é desigual porque o computador não pensa sozinho no desenvolvimento de uma sociedade”.

SUS da arquitetura

Outro projeto importante para a área da arquitetura acaba de ser aprovado. Trata-se da Lei de Assistência Técnica à Habitação de Interesse Social 6.981/06, criado pelo deputado federal Zezéu Ribeiro, conseqüência de um empenho do Sistema Confea/Crea, instituições e entidades de classe. A lei assegura às famílias de baixa renda assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social.

Na avaliação do arquiteto Carlos Ubiratã de Souza, coordenador da Câmara de Arquitetura do Crea-BA, a parceria entre governo, instituições de ensino e sociedade é fundamental no desenvolvimento desses projetos que passam, antes de tudo, pela valorização profissional. “Entre 60% a 70% dos arquitetos estão ligados a órgãos públicos, o que contribui para a desvalorização, já que ele não é bem remunerado”, avaliou o coordenador.

Enquanto a Lei não sai do papel, o estudante Miguel Carlos Júnior, do segundo semestre de Arquitetura da Ufba, planeja atuar em projetos de arquitetura pública. “As pessoas constroem habitações não planejadas e desprotegidas. Não adianta ficarmos em sala de aula se não levarmos o nosso conhecimento, mínimo que seja, para a prática”, indaga Miguel.

 

Diversificar é preciso

 

Quando a arquiteta Liza Magalhães se formou, na década de 90, havia um campo de trabalho maior para que o profissional de arquitetura atuasse individualmente no mercado. Atualmente, a competitividade leva às associações entre profissionais de diferentes áreas. “Se associar é uma conseqüência natural, pois com a quantidade cada vez maior de informações a gerenciar, softwares a dominar, material a produzir, dentre outras necessidades, seria inviável conduzir tudo sozinha”.

A arquiteta avalia que o escritório permite, além do aproveitamento da estrutura, a troca de idéias na concepção dos projetos, o que resulta na melhoria da qualidade dos produtos ofertados aos clientes.

 


Associação Bahiana dos Geólogos – ABG
“O mercado de trabalho em geologia está em expansão. Devemos isso à busca por metais (como ferro), que atrai indústrias para o estado. Saliento, no entanto, que os cursos de geologia demandam investimento e é preciso incentivar mais a pesquisa na área.” Geóloga Maria Angélica Barreto Ramos, presidente

 

Associação de Arquitetos e Engenheiros da
Construção Civil do Sudoeste da Bahia

“A sociedade confunde as funções do engenheiro e do arquiteto, mas isso está mudando. No entanto, para que haja, de fato, a valorização das profissões, é preciso que o profissional tenha mais atitude e cobre desde o seu nome nos projetos até a responsabilidade da formação de mão-de-obra adequada.” Arquiteto Robson Santana Leite - presidente


Associação dos Engenheiros
Agrimensores do Estado da Bahia

“A Engenharia de Agrimensura é um mercado sem restrições. Sobretudo a partir do Sistema de Georreferenciamento Global, ela tornou-se o pivô da Engenharia. Mas a valorização profissional está comprometida pelo exercício ilegal na área, o que tem gerado serviços de baixa qualidade.”
Engenheiro Antônio Batista Machado - presidente

Clube de Engenharia da Bahia - CEB
“Para cobrarmos a valorização do profissional, é preciso que haja incentivo e políticas do governo federal. O próprio salário base do engenheiro é desrespeitado, e, mesmo com a luta de entidades como o Crea, faltam investimentos públicos. Sem isso, iremos conviver com a falta de empregos.”
Engº Civil João Batista Paim, presidente

 


Sindicato dos Engenheiros da Bahia - Senge
“Engenharia é mais do que projetar e construir obras, produtos. O engenheiro é um agente de promoção da saúde e do bem-estar físico e mental do homem. Além de mestres e doutores, as universidades precisam de profissionais experientes na execução/elaboração de projetos que mantenham vínculos empregatícios e/ou de trabalho com as empresas públicas e/ou privadas.”
Engº Ubiratan Félix, presidente


Associação Profissional dos Engenheiros
Florestais do Estado da Bahia - Apefeba

“Na Bahia, o engenheiro florestal de outras regiões encontra mais espaço de trabalho do que os profissionais locais. Para reverter esse quadro, é preciso que as universidades baianas invistam na melhoria da formação. Assim poderemos nos organizar em torno de questões como a formação de florestas de produção e redução do desmatamento.”
Marcelo Miranda, presidente

 

Sindicato da Indústria da Construção
Civil da Bahia – Sinduscon

“O país precisa investir em políticas públicas. Com a chegada de novos grupos estrangeiros, teremos um mercado competitivo. Isso vai gerar crescimento em volume de trabalho, em técnica e valor do profissional. Investimentos públicos na área do turismo, indústria do petróleo e celulose são exemplos de podemos crescer o mercado
da Engenharia no País.”
Vicente Mattos, presidente

 


Associenge - Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Teixeira de Freitas
“A Engenharia e a Arquitetura precisam de apoio. Seja do Estado, com a priorização de investimentos públicos, sobretudo com políticas de saneamento, seja através da fiscalização do Sistema Confea/Crea.”
Engº Lúcio José de Castro, presidente

 


Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Teixeira de Freitas
“Precisamos resgatar a ética profissional. Um engenheiro civil, por exemplo, trabalha numa obra e é incapaz de chamar um engenheiro eletricista para desenvolver as atividades de sua habilitação. Antes de formar engenheiro ou arquiteto, é preciso formar seres humanos.”
Engº Agnaldo Gomes Conceição, presidente

 

Engenharia Civil
“O engenheiro civil está desvalorizado dentro do Sistema Confea/Crea. Primeiro, porque a profissão muitas vezes não é percebida. Muito se fala na ousadia de Oscar Niemeyer de projetar Brasília, mas ninguém sabe de quem foi o cálculo estrutural da obra. Sugiro que o Confea institua, assim como os Creas, Câmaras especializadas para discutir a crise e apontar soluções.”
Engº Enéas Cardoso de Almeida Filho

 

Engenharia Elétrica
“Todos os dias surgem inovações na Engenharia, o que torna a atualização profissional cada vez mais importante. As escolas devem formar mais profissionais, e não apenas acadêmicos. Nesse sentido, defendemos a Engenharia tronco, a produção de novas tecnologias
básicas em todas as engenharias.”
Engª Teresa Cristina B. de Sousa


Engª Mecânica
“De todas as engenharias, podemos dizer que a Mecânica é a
que está mais bem qualificada no mercado de trabalho. Mesmo
o profissional sem o curso de pós-graduação (cuja aceitação
é muito grande) encontra grandes oportunidades.”
Engº Mecânico Paulo César R. Chaves


Engenharia de Minas
“Precisamos de políticas efetivas para o setor mineral brasileiro. Com o adequado mapeamento geológico e implementação de estímulos
(apoio, crédito e fomento) para os empreendedores da mineração,
engenheiros de minas, geólogos e técnicos terão
um extraordinário mercado de trabalho a ser explorado.”
Engº. José Francisco Ramalho

 

 

460 mil engenheiros e 44 mil arquitetos estão registrados no Brasil
Somadas, as categorias reúnem 28 mil profissionais na Bahia.

 

 

120 novos arquitetos chegam anualmente ao mercado baiano

 

Engenharia reúne mais de 60 habilitações profissionais


Por Cleide Nunes

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