A
conclusão do Laudo Radiométrico Simplificado referente
aos índices de radiação eletromagnética
em Salvador foi apresentada durante uma audiência pública
promovida pelo Crea, no início de março. O evento,
na sede do Conselho, resulta de uma parceria entre a Câmara
Especializada de Engenharia Elétrica e o Departamento
de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica da
Universidade Federal da Bahia (Ufba).
As medições, iniciadas em agosto de 2003 e concluídas
em fevereiro deste ano, previam a aferição da
intensidade da radiação emitida dentro da faixa
de freqüência de 100KHz a 3GHz, o que inclui as antenas
de telefonia celular, rádio e TV, na capital e em Feira
de Santana. O intuito é fornecer dados preliminares sobre
um problema que tem gerado ansiedade entre a população
e aglutinar os órgãos competentes num amplo debate
sobre os efeitos da exposição a ondas eletromagnéticas.
"Nossa expectativa é que, a partir do estudo, cada
órgão, dentro da sua área de competência,
chame para si a responsabilidade de discutir fatores específicos
como a revisão dos níveis permitidos no país,
os efeitos térmicos e atérmicos da radiação
e os critérios para a instalação de antenas",
declarou o presidente do Crea, Marco Amigo, na abertura do evento.
Situação crítica
Os resultados apresentados pelo coordenador do trabalho, o
engenheiro Roberto da Costa e Silva, indicam que a situação
em Salvador, assim como ocorre em outros estados, é preocupante.
Em São Paulo, por exemplo, as estimativas dão
conta de que apenas 4% das antenas instaladas estão de
acordo com as normas da Anatel. Na capital baiana não
é diferente. Oficialmente, existem 346 antenas identificadas,
segundo informou o representante da Secretaria do Planejamento
da PMS, Luiz Fernando Nascimento. Essa estatística, no
entanto, não é unanimidade. Estima-se que, somadas
todas as torres, o número suba para mil.
De acordo com Marco Amigo, outro agravante em Salvador é
que, além da emissão de radiação,
não existe nenhum projeto no sentido de racionalizar
a distribuição das antenas dentro de padrões
urbanísticos aceitáveis e que levem em conta não
apenas a estética da cidade, mas, acima de tudo, a saúde
dos cidadãos.
Nesse aspecto, a iniciativa do Crea foi apontada como inovadora
ao abordar um tema que sequer é tratado na grade curricular
dos cursos que têm interface com as questões ambientais.
"A ação do Conselho é um passo importante
no sentido de chamar a atenção para a interdisciplinaridade
do tema", ressaltou a representante da Promotoria de Meio
Ambiente do Ministério Público Estadual, Cristina
Seixas. Segundo ela, é preciso garantir o direito da
população à saúde, e isso passa
pelo envolvimento de vários segmentos na elaboração
de pesquisas que atestem os possíveis riscos do avanço
dessa tecnologia. "Estes estudos vão fundamentar
o poder público no aprimoramento da legislação.
Não tenho dúvida de que o ônus dessas pesquisas
deva ser rateado entre as empresas que exploram os serviços",
cobrou a promotora.
Números da pesquisa
O estudo mapeou 20 áreas, totalizando 288 pontos. Desse
total, oito apresentaram campo elétrico superior ao limite
de 9 volts/m, estabelecido pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente
(Cepram). Entre os bairros, o da Federação é
apontado como o local de maior intensidade de radiação,
justificada pela significativa presença de torres de
rádio e televisão cuja potência é
superior à das antenas de telefonia celular.
Nos shoppings a situação é ainda mais
grave. Em cinco anos, o índice de radiação
dobrou. A afirmativa feita pelo professor Costa e Silva confirma
a urgência do debate sobre os efeitos decorrentes da exposição
dos cidadãos às ondas eletromagnéticas.
Em alguns locais, os valores excederam em até dez pontos
o limite estabelecido pelo Cepram. Dos cinco shoppings analisados,
três - Itaigara, Lapa e Iguatemi - apresentaram valores
médios de 11,05 V/m, 25,50 V/m e 20,73 V/m, respectivamente.
"Essa situação poderia ser evitada com o
uso de cabos irradiantes", orientou Costa e Silva. Segundo
o professor, a legislação brasileira desconsiderou
o fato de que as pessoas poderiam vir a habitar regiões
próximas às antenas. Sobre o risco dessa proximidade,
o laudo revela que o valor médio da radiação
em pontos próximos (até 100 metros) às
torres é cerca de quatro vezes maior que o dos pontos
distantes.