As
ruas carregadas de história do Pelourinho voltam a ser
palco da polêmica batalha entre os interesses do Estado,
que vê na desapropriação das casas a única
forma de conservar esse patrimônio tombado pela Unesco,
e os da população residente na área, que,
tendo ali seu local de trabalho e seu círculo de amigos,
grita pela permanência no tão visitado Centro Histórico
de Salvador. A polêmica não é nova, nasceu
ainda em 1993, quando o Instituto do Patrimônio Artístico
e Cultural (Ipac) deu início à primeira etapa
do projeto de revitalização. Realimentada a cada
fase realizada, a discussão foi herdada pela Companhia
de Desenvolvimento Urbano (Conder), que em 2002 deu os primeiros
passos para a concretização da sétima etapa
da reforma.
A novidade nesse caso é que o projeto apresentado ao
governo federal para conseguir o aporte de recursos do programa
Monumenta-BID prevê a manutenção dos moradores
no local, o que pode ser confirmado no trecho transcrito do
documento: "...neste processo não deve ser deixado
de lado o elemento humano que ali vive e trabalha, exercendo
as mais diversas atividades, como artistas, artesãos,
grupos afro e capoeiristas que caracterizam a área".
A postura estabelecida no projeto, no entanto, foi deixada de
lado na hora de colocá-lo em prática, o que tem
causado preocupação ao Crea. "A preservação
do patrimônio é fundamental, mas não pode
se sobrepor à preservação da vida",
defende o presidente do Conselho, Marco Amigo, afirmando que
a solução para garantir a manutenção
dos benefícios obtidos com a reforma deve ser discutida
com a população.
"O ocupante poderia assinar um contrato se comprometendo
a usar o imóvel de acordo com as regras de preservação",
aponta Amigo, complementando que, para isso, seria necessário
um investimento maior por parte do governo estadual. A saída
acelerada dos moradores tradicionais do Centro Histórico
para o início das obras da sétima etapa da revitalização
também chamou a atenção do Ministério
Público, que instaurou um inquérito para apurar
a condução do processo. "Detectamos que,
na verdade, estavam pressionando as pessoas para receberem indenização
ou serem relocadas para Coutos", explica o promotor de
Justiça e Cidadania Lidivaldo Brito.
Desapropriação e despejo
Afirmando que 70% dos imóveis envolvidos na questão
têm ação de despejo em andamento, a Conder
garante que os proprietários interessados em reformar
seus casarões e manter a posse terão a opção
de fazê-lo mediante uma linha de financiamento incluída
no próprio Monumenta. A posição mais flexível,
contudo, só foi adotada após o MP iniciar as investigações
e localizar dois proprietários legalmente comprovados
que também tiveram seus imóveis listados no processo
de desapropriação. A princípio, nenhuma
proposta alternativa foi colocada para Maria Ivonete Silva Mota
ou Elza Maria Farias de Morais, enquadradas entre os moradores
locais que podem financiar em 15 anos os custos de reforma dos
seus imóveis.
"A maioria dos proprietários aceita receber a
desapropriação, o valor da indenização
é estabelecido de acordo com os parâmetros do estado,
mas quem discorda pode discutir em juízo", defende
o assessor jurídico do órgão, Eduardo Carrera.
O estado de degradação da própria construção
e o contexto da localidade - "zona de prostituição,
tráfico e jogo do bicho", diz Carrera - resultam
em indenizações de baixo valor para imóveis
igualmente desvalorizados. Segundo consta no relatório
socioeconômico realizado pela Conder, as propriedades
foram avaliadas entre R$1 mil a R$400 mil, com valor médio
de R$40 mil.
Embora reconheça que, do ponto de vista legal, o governo
não tenha qualquer obrigação com os muitos
invasores que ocupam as casas do Centro Histórico, Brito
ressalta que é preciso pensar também no lado humano.
"Tem dois tipos de ocupantes, os que se dedicam ao tráfico
e à prostituição, mas também tem
outros, que moram lá há 20, 30 anos, e inclusive
fizeram pequenas reformas nos seus imóveis, impedindo
que eles se transformassem em ruínas". Concluído
em junho de 2002, o inquérito forneceu subsídios
para o ajuizamento da Ação Civil Pública
38.148-7/2002, que pleiteia uma liminar, ainda não concedida,
contra o governo estadual e a Conder.
Patrimônio cultural
"Abrange tudo aquilo que permita compreender o homem e
a sua cultura...". Citada no inquérito civil, a
definição da arquiteta Elena Graeff para patrimônio
cultural é a base de sustentação para a
ação do MP em benefício da manutenção
dos moradores no Centro Histórico. "Eles querem
ver o suingue, o suor, a raiz do povo que está aqui,
não querem ver aquela coisinha padronizada, a cultura
é tudo aquilo que podemos ser", defende a presidente
da Associação de Moradores e Amigos do Centro
Histórico (Amach), Sandra Regina, afirmando que o governo
se equivoca quanto aos pontos de interesse dos turistas que
freqüentam o lugar.
"O Pelourinho nunca será propriamente uma atração
turística, quem freqüenta são as pessoas
de classe baixa. Os que chegam de fora olham e vão embora.
As compras são feitas mesmo é no Mercado Modelo",
contrapõe Carrera, contrariando a profusão de
idiomas e sotaques ouvidos dia e noite nas ruas locais. Para
o assessor da Conder, o maior problema é que cerca de
80% da população exerce atividades ilegais e ameaça
a segurança das pessoas. "É conhecida como
cracolândia e nenhum cidadão em sã consciência
passa lá depois das 16h", fala sobre a 28 de Setembro,
rua que abriga a sede da Amach.
O percentual indicado durante a entrevista é contestado
pelo relatório socioeconômico elaborado pela própria
Conder. Embora prevaleça o emprego informal e 36,2% dos
moradores tenham um rendimento mensal inferior a um salário
mínimo, a população local é formada
basicamente de estudantes, biscateiros, empregadas domésticas,
comerciários e ambulantes. Claro que alguns dados da
pesquisa se confrontam com a realidade, como o fato de apenas
0,5% das 1.936 pessoas entrevistadas terem declarado viver da
prostituição, quando a Associação
das Prostitutas do Estado contabiliza 120 associadas na área
da sétima etapa.
De acordo com o perfil econômico observado pela Conder,
apenas 28 famílias teriam condições financeiras
para integrar o programa habitacional previsto para esta etapa,
o que significa renda entre dois e seis salários mínimos.
A destinação dessas 360 unidades residenciais
que serão construídas nos 130 imóveis que
aguardam restauração mostra a faceta mais delicada
dessa fase da revitalização. Para o promotor do
MP, o fato de desapropriar para destinar a uma outra classe
constitui uma limpeza social, o que é inaceitável.
Por outro lado, o arquiteto Paulo Canuto, coordenador do Monumenta
na Bahia, defende que, no caso do Pelourinho, a mudança
das redes sociais é um efeito colateral inevitável,
mas reconhece o sucesso de projetos como o realizado em Barcelona,
nos quais a população original foi mantida. "Falta
ao povo brasileiro a cultura de preservação da
sua história e do seu patrimônio", argumenta.
Um exemplo geograficamente mais próximo é trazido
por Brito, que cita a ação do Monumenta em Olinda.
"O projeto baiano é o único do Brasil que
exclui os moradores", afirma. Olhando de fora, o arquiteto
Armando Branco acredita que a população saída
do Centro Histórico - mediante pagamento de um auxílio-relocação
de no máximo R$2,3 mil - acabará por voltar de
uma outra forma, causando um novo problema. "A degradação
social e imobiliária que já se espalha pelas ladeiras
da Independência, da Palma e do Gravatá é
um processo resultante das expulsões do Pelourinho".