A Feira de São Joaquim completou 40 anos de tradição.
Após dois dias de debates sobre uma proposta de tombamento
para o local, o seminário "Da feira que queremos
à feira que temos", realizado no Complexo Educacional
Jequitaia, no início de junho, lançou um documento
com as diretrizes que devem nortear futuras intervenções
na área.
A Carta de São Joaquim, como vem sendo chamado o documento,
reconhece a importância de projetos como a revitalização
do Comércio, Via Náutica e a ampliação
do Porto de Salvador, mas faz um alerta para que as condições
precárias de infra-estrutura nas quais a feira se encontra
não sirvam de argumento para que o poder público
implemente um projeto arquitetônico que priorize exclusivamente
os interesses de grandes grupos econômicos, a exemplo
do setor de Turismo.
O maior receio é que uma proposta de intervenção
no espaço desemboque na padronização excessiva,
descaracterizando o local, referência no fornecimento
de alimentos e produtos típicos para as atividades festivas
da Bahia. A sugestão é que os pontos de vendas
permaneçam na enseada de São Joaquim e que políticas
públicas nos âmbitos municipal, estadual e federal
sejam definidas, conciliando as melhorias previstas à
manutenção da identidade cultural.
Crea apóia melhorias
Para o presidente do Crea, Marco Amigo, que integrou os debates
sobre a elaboração de um projeto arquitetônico
articulado com a qualificação ambiental da área,
qualquer proposta de revitalização deve partir
da setorização do local. "Na diversidade
da feira é possível encontrar produtos químicos,
artefatos juninos (fogos) e combustíveis, que exigem
condições especiais de transporte, armazenamento
e manuseio. No entanto, esses produtos estão dispostos
sem qualquer segurança com a agravante de estarem próximos
dos alimentos", advertiu Amigo.
O problema é tão sério que, no final
do ano passado, a Operação Fiscalização
Chumbinho vistoriou cerca de 40 barracas em São Joaquim,
apreendendo 3kg do Temik-150 comercializados clandestinamente.
A mobilização envolveu representantes da Agência
de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), Polícia
Militar, Secretaria de Serviços Públicos da Prefeitura
(Sesp) e a Secretaria da Saúde (Sesab). Na oportunidade,
os técnicos encontraram 1kg do Temik-150 nos pontos inspecionados
na feira da Liberdade.
Patrimônio imaterial
A indicação do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de transformar
a Feira de São Joaquim em patrimônio imaterial
é apoiada pelo Crea-BA. De acordo com Marco Amigo, a
preservação da identidade cultural do espaço
é de fundamental importância, no entanto os órgãos
competentes devem impor condições de higiene e
salubridade para que barraqueiros possam permanecer em São
Joaquim. As perspectivas de intervenção no local
visam oferecer segurança e conforto às 7.500 pessoas,
entre elas feirantes, ambulantes, carregadores e os mais de
dez mil freqüentadores diários da feira.
Segundo a vereadora e presidente da Comissão dos Direitos
do Cidadão da Câmara Municipal de Salvador, Olívia
Santana (PCdoB-BA), a iniciativa surgiu a partir do acúmulo
de denúncias feitas pelos feirantes quanto aos problemas
referentes à infra-estrutura. "É necessária
uma ação sistemática por parte do poder
público, que intervenha na valorização
do local, responsável pelo sustento de um número
significativo de pessoas numa cidade que é campeã
de desemprego no país", reiterou Olívia.
Projetos interligados
Diante do plano Porto-Cidade, que prevê a cessão
para Salvador de parte dos armazéns das Docas e ampliação
de um novo porto no município, na área entre São
Joaquim e o pátio de contêineres em Água
de Meninos, o presidente do Sindicato dos Engenheiros (Senge),
Paulo Gomes, falou das perspectivas para a feira. Ele entende
que, este plano, junto à implantação do
projeto Via Náutica - uma iniciativa da prefeitura municipal
e do governo estadual, orçada em R$34,37 milhões
entre investimentos públicos e privados - vai facilitar
a circulação de pessoas e mercadorias entre Salvador
e o Recôncavo baiano.
A expectativa é que, com a reforma dos armazéns
das Docas, sejam criadas lojas que funcionarão como um
centro náutico, que vai oferecer uma variedade de serviços
como escolas de mergulho e restaurantes. Na visão de
Paulo Gomes, um projeto de intervenção na feira
também não deve se restringir a um mercado de
frutas e comidas típicas da região. Para o engenheiro,
é preciso incluir no projeto espaços para creches
e postos de saúde para que o trabalhador administre simultaneamente
a vida pessoal e o trabalho.
Ação conjunta
O seminário foi uma promoção da Comissão
dos Direitos do Cidadão da Câmara Municipal de
Salvador, juntamente com a Associação dos Feirantes
e Ambulantes, a Ufba, o Senge e a Fundação Cultural
Palmares. A Secretaria Nacional de Promoção da
Igualdade Racial foi representada, na abertura, pela ministra
Matilde Ribeiro, que, depois de visitar a feira, teve a mesma
impressão de quando esteve em Moçambique. Para
a ministra, valorizar espaços como este é perpetuar
a cultura dos afro-descendentes.
Ao longo do evento participaram também o professor
e historiador Cid Teixeira, representantes do Iphan, da Conab,
da Caixa Econômica Federal (CEF) e do Departamento de
Construção e Estrutura da Escola Politécnica
da Ufba.