Reunidos no V Congresso Estadual de Profissionais, engenheiros,
arquitetos, agrônomos, geógrafos, geólogos
e meteorologistas discutiram questões relacionadas a
"Exercício Profissional e Cidades Sustentáveis"
e formularam uma série de propostas que serão
defendidas pelos delegados eleitos durante o evento na versão
nacional do encontro, que acontece de 30 de novembro a 4 de
dezembro, em São Luís-MA. Interessado em ampliar
continuamente seu campo de ação, o Crea buscou
promover um debate "na direção da consolidação
de um novo pacto social, onde as tecnologias sejam acessíveis
e estejam cada vez mais a serviço de toda a sociedade,
independentemente de seu poder econômico", definiu
o presidente Marco Amigo.
Palestras proferidas por profissionais baianos e de outros
estados serviram como base para a reflexão feita pelos
participantes sobre o papel do Sistema Confea/Crea na construção
de um campo de trabalho continuamente ajustado às demandas
sociais e profissionais. "Apenas com a sustentabilidade
da sociedade será possível o exercício
de qualquer profissão", defendeu Amigo, classificando
os dois temas centrais como indissociáveis. Compartilhado
pelos cerca de 300 profissionais presentes no evento, esse ponto
de vista dirigiu o trabalho em grupo que resultou nas propostas
que representam o contexto baiano na discussão nacional
dos desafios urbanos e rurais e nos paradigmas da área
tecnológica neste início de milênio.
Cidades Sustentáveis
O crescimento populacional acelerado foi apontado pelo arquiteto
Armando Branco como base para grande parte dos problemas enfrentados
nas cidades contemporâneas. Degradação ambiental,
desigualdade social e segregação urbana foram
alguns dos efeitos do aumento desordenado na demanda por transporte,
habitação, saúde, educação
e outros serviços fundamentais para garantir boa qualidade
de vida. No seu Diagnóstico das questões urbanas,
o arquiteto analisou fatores que causam entraves na gestão
de Salvador, ressaltando a ausência de um debate democrático
quanto às políticas públicas. "É
preciso disseminar informações e conhecimento,
permitindo uma participação consciente da população,
avaliando a relação de toda a sociedade com o
resultado das intervenções realizadas", defende
Branco, expondo o processo que acredita ser o mais adequado
para a elaboração dos planos diretores.
Os mecanismos que de fato regem esse planejamento foram trazidos
pela também arquiteta Heloísa Araújo, que
ressaltou o caráter multidisciplinar dos PDs. "Os
planos são complexos, pois devem partir de uma inter-relação
entre diversos saberes, e não de uma soma", definiu
Heloísa, que reafirmou os conceitos defendidos por Branco
e chamou a atenção para o descumprimento das orientações
determinadas pelo Estatuto das Cidades. "O PD do nosso
município não estabelece qualquer diretriz relativa
a povoados e vilas, mas a lei diz que os planos não podem
se restringir à área urbana", esclarece.
Questionando o próprio estatuto, a arquiteta se preocupa
com o fato de cidades com até 20 mil habitantes não
precisarem elaborar esse planejamento.
Em todo o estado são 418 municípios isentos
da obrigatoriedade de ter um plano diretor. Boa parte deles
é essencialmente rural, exigindo uma análise que
contemple as diferenças entre campo e cidade. Representadas
pelos inspetores do Crea e delegados eleitos nas discussões
preparatórias realizadas em diversas regiões da
Bahia, essas pequenas cidades foram o objeto da fala do geógrafo
Ariovaldo de Oliveira no diagnóstico das questões
rurais e da reforma agrária. "O discurso de exaltação
do agronegócio quer esconder a grande quantidade de terra
improdutiva e devoluta que existe no território brasileiro",
afirmou o professor da Universidade de São Paulo, resumindo
sua visão sobre o tema (veja entrevista na página
10).
As questões levantadas sobre as cidades, sejam elas
grandes capitais ou municípios essencialmente rurais,
resultaram na elaboração de 22 propostas direcionadas
para a criação e manutenção de uma
sociedade sustentável. No âmbito urbano destacaram-se
as idéias de inclusão de projetos de engenharia
e arquitetura públicas nas ações de planejamento
do Sistema e da promoção de treinamentos para
profissionais e estudantes nas áreas relacionadas ao
tema central. Uma maior aproximação com as diversas
instâncias do poder público federal permeou grande
parte das proposições elaboradas visando apoiar
a concretização das metas estabelecidas na Conferência
das Cidades.
A parceria com o governo também foi ressaltada pelo
grupo de trabalho (GT) responsável pela discussão
das possíveis soluções para os problemas
rurais. A busca do apoio da Embrapa em projetos de inclusão
da agricultura familiar camponesa e da agroecologia é
uma evidência clara desse direcionamento. A defesa do
Rio São Francisco, objetivo perseguido historicamente
pelo Crea, também fez parte das propostas enviadas para
o evento nacional.
Formação e atribuições
Preocupação presente na fala de todos os palestrantes
que abordaram assuntos ligados à formação
e ao exercício profissional, a reformulação
da Resolução 218, objeto de uma das propostas,
foi aprovada por unanimidade. O texto solicita suspensão
imediata do processo de aprovação do documento
e que o mesmo só possa ser homologado seis meses após
todas as diretrizes curriculares estarem aprovadas. Promover
uma análise mais detalhada quanto ao novo modelo de atribuições
profissionais e o reconhecimento de cursos de especialização
e do autodidatismo foi o objetivo defendido na explanação
da conselheira federal Maria Higina do Nascimento para a elaboração
dessa proposição.
O arquiteto Gogliardo Vieira Maragno se remeteu aos primórdios
da civilização para falar sobre a importância
das regulamentações profissionais. Partindo do
Código de Hamurabi até os dias de hoje, ele ressaltou
o caráter social de tais regras, afirmando que elas estão
sempre voltadas para a proteção da população.
Embora defenda a necessidade de rever a resolução,
pois é necessário adequá-la à Lei
de Diretrizes e Bases (LDB), ele reconhece as dificuldades para
fazer tal combinação. "A LDB busca uma flexibilização
regional, mas a regulamentação profissional busca
a uniformidade nacional", analisa, defendendo que, apesar
das diferenças, ambos têm de convergir para o atendimento
das necessidades da sociedade.
Um sério entrave para a adoção desse
direcionamento único nas políticas educacionais
e profissionais é que o país ainda tem de lidar
com uma série de problemas estruturais. "Estamos
administrando déficits e carências enquanto outros
países estão administrando desenvolvimento",
sublinhou o presidente da Mútua, Henrique Luduvice, na
sua análise do papel das tecnologias frente às
desigualdades sociais. Esse abismo entre o ideal e a realidade
também é percebido pelo engenheiro agrônomo
Valdo Cavallet, que lançou um olhar crítico sobre
a educação superior no Brasil.
"A universidade está preparando com as ferramentas,
mas não diz o que fazer com elas", afirma Cavallet,
lembrando que as diretrizes curriculares do curso de engenharia
agronômica estão há seis anos esperando
pela aprovação. Defensor do ganho de atribuições
de acordo com a experiência profissional, ele participou
da equipe responsável pela proposta que solicita a intervenção
do Sistema no processo de contratação de professores
para que seja exigido um acervo técnico que evidencie
experiência na área pleiteada pelo docente.