| Autor
da análise Barbárie e modernidade: as transformações
no campo e o agronegócio no Brasil, o professor
do Departamento de Geografia da Universidade de São
Paulo (USP) , Ariovaldo de Oliveira, discorreu para os
participantes do V Congresso Estadual dos Profissionais
da Engenharia, Arquitetura e Agronomia sobre o tema Diagnóstico
das questões rurais e reforma agrária.
Membro da equipe responsável pela elaboração
do Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), Oliveira
divulgou dados do trabalho no qual traça um panorama
múltiplo da realidade rural brasileira, incluindo
os conflitos pela posse da terra e a maior participação
da agricultura familiar na geração de empregos
e capital. O aproveitamento conseguido pelas pequenas
propriedades, a despeito das dificuldades para obtenção
de crédito e assistência técnica,
comprova as análises do professor. Enquanto a agricultura
patronal tem obtido R$44 por hectare/ano, a agricultura
familiar atinge os R$104 com o mesmo espaço, em
período igual, sendo responsável por 38%
do valor bruto da produção agropecuária
do país.
Nesta entrevista, o geógrafo afirma que os mais
de 200 milhões de hectares de terras devolutas
apropriadas ilegalmente no país deveriam estar
a serviço da reforma agrária, e não
das grandes propriedades privadas. |
REVISTA CREA-BA - O que está
por trás da exaltação ao agronegócio?
ARIOVALDO DE OLIVEIRA - A exaltação
do agronegócio visa encobrir a existência de mais
de 200 milhões de hectares de terras devolutas apropriadas
ilegalmente no país e de mais de 120 milhões de
hectares de terras improdutivas existentes nas grandes propriedades.
Ambas deveriam ser destinadas pela Constituição
para a reforma agrária. A exaltação é,
pois, uma ação contra a reforma agrária.
RC - Qual o problema dos critérios
adotados para definir a produção das propriedades
rurais?
AO - Os critérios utilizados para
definir os índices de produtividade foram estabelecidos
a partir dos dados do Censo Agropecuário de 1970. De
lá para cá, a produtividade e o avanço
tecnológico mudaram os índices e eles precisam,
portanto, ser atualizados. Assim, haverá mais terra improdutiva
no país.
RC - Comparativamente, qual a
abrangência da agricultura familiar x grandes propriedades?
AO - A agricultura familiar responde por
mais de 60% da produção do agronegócio.
A soja, que é a grande vedete do agronegócio,
34% do volume de sua produção vem das unidades
com menos de 200 hectares.
RC - Como o senhor avalia o governo
Lula em relação à reforma agrária?
AO - O governo Lula está fazendo uma
reforma agrária menor do que o país precisa e
não a transformou em uma efetiva política de desenvolvimento
econômico. A base da reforma agrária deste governo
é de política compensatória. O Brasil tem
hoje acampadas mais de 220 mil famílias e mais 830 mil
inscritas no programa dos Correios para receberem terras da
reforma agrária, entretanto Lula decidiu assentar apenas
400 mil famílias.
RC - O que o senhor quer dizer
com política compensatória?
AO - Política compensatória
é quando no planejamento governamental não se
inclui o setor como capaz de gerar simultaneamente empregos,
renda e volume de produção significativa.
RC - O que podemos destacar da
situação da Bahia no que se refere às terras
devolutas?
AO - Na Bahia, elas são mais de 18
milhões e estão, sobretudo, nos municípios
do Vale do São Francisco. Há municípios
que têm mais de 80% de sua superfície como terras
devolutas.
RC - O governo tem uma política
efetiva para o campo?
AO - A política de desenvolvimento
agrário do governo visa à diminuição
dos conflitos, e não é, pois, uma política
de acabar de vez no país com o latifúndio improdutivo.
RC - Qual o papel do Sistema
Confea-Crea nesse contexto?
AO - O Sistema Confea-Crea tem uma missão
importantíssima, pois serão seus técnicos
chamados a aferir as terras devolutas e as improdutivas. E a
esperança daqueles que têm a ética como
bandeira é não permitir que essas terras apropriadas
ilegalmente sejam legalizadas através de expedientes
ilícitos.