A
elaboração dos Projetos de Gerenciamento de Resíduos
da Construção é o único item que
falta para que Salvador se ajuste aos parâmetros estabelecidos
na Resolução 307 do Conselho Nacional do Meio
Ambiente (Conama). As construtoras têm até janeiro
de 2005 para fazer o planejamento que irá garantir um
melhor aproveitamento de material, reduzindo a quantidade de
entulho proveniente de construção, reforma e obras
de terraplanagem. Formado por concreto, argamassa, cerâmica
e rochas, esse resíduo representa cerca de 45% de todo
o lixo recolhido na cidade, tendo ultrapassado as duas mil toneladas
diárias em 2003.
Embora mais de 60% desse montante seja refugo de construções
informais, o Sindicato da Indústria da Construção
Civil (Sinduscon) já iniciou junto ao Qualiop - Programa
de Qualidade das Obras Públicas da Bahia - um trabalho
direcionado para o cumprimento da resolução. "Com
o treinamento contínuo de pessoas para a redução
de perdas de massas, lajotas, azulejos e similares, conseguiremos
custos mais baixos, melhor preço para o comprador e uma
queda na geração de resíduos", estima
Marcos Melo, um dos diretores do Sinduscon.
Multas e área de descarte
A aproximação do fim do prazo de adequação
das construtoras acontece exatamente no momento em que a redução
da produção de entulho e o empenho para sua reciclagem
aparecem como metas centrais do Plano de Gestão Diferenciada,
adotado pela cidade em 1997. Desde então, a promulgação
do Decreto 12.133, que "dispõe sobre manejo, acondicionamento,
coleta, transporte, tratamento e destino final" desse material,
conseguiu reduzir em cerca de 75% os pontos de descarte irregular.
A infração, fiscalizada pela Limpurb e pela Secretaria
Municipal de Serviços Públicos, pode ocasionar
multa de até 730 Ufirs, mas a punição normalmente
só é aplicada quando os resíduos não
são retirados após notificação.
"Hoje já não encontramos áreas com
grande volume de descarte, apenas pequenos amontoados",
afirma a chefe do setor de Proteção à Estética
da Cidade da Sesp, Ana Carolina Sales, apontando uma mudança
de postura, principalmente entre os grandes construtores. Outra
medida que colaborou para o encaminhamento adequado dos resíduos
dos canteiros de obras foi a instalação dos Postos
de Descarga de Entulho (PDEs), unidades com capacidade para
2m3, distribuídas em seis pontos da cidade, para os quais
os produtores devem transportar o entulho pré-selecionado,
ou seja, livre de lixo orgânico, terra ou resto de podas.
Embora as regras para o cadastro das empresas habilitadas
para fazer esse tipo de transporte ainda não tenham sido
definidas, os veículos carregados de entulho também
estão sujeitos a fiscalização e multa.
"Ainda não temos transportadores autorizados, mas
observamos se não há resíduo caindo nas
vias públicas, se o pneu não está sujo
de barro e outras questões que possam prejudicar o aspecto
da cidade", explica Ana Carolina. Depositado nos PDEs,
o material é transportado para a Base de Descarga no
antigo aterro de Canabrava, local onde será instalada
a primeira usina de reciclagem de entulho de todo o estado.
A expectativa é que a construção da unidade,
projetada para processar 360 toneladas por dia, seja iniciada
nos próximos meses.
Pesquisa defende reciclagem
De acordo com pesquisa realizada pelo Departamento de Ciência
e Tecnologia dos Materiais (DCTM) da Escola Politécnica
da Ufba, apenas a quantidade de massa desperdiçada durante
o ano daria para construir 50 edifícios com dez pavimentos
e quatro apartamentos de 50m2 por andar. O mesmo estudo indicou
ainda que, se todo o material reciclável fosse de fato
reprocessado, seria possível construir um conjunto habitacional
por mês. Embora apresente características específicas
para o seu uso, o agregado reciclado mostrou-se confiável
para utilização no preparo de concreto, já
sendo aplicado com sucesso em Belo Horizonte e São Paulo.
"Ele retém mais água, tem maior teor de
finos e por tudo isso vai alterar aquela proporção,
passada de uma geração para a outra, entre a brita,
o arenoso e os outros materiais utilizados", explica o
engenheiro Alexandre Machado, membro do DCTM, ressaltando que
será preciso treinar os trabalhadores da construção
para lidar com o novo produto. Ciente das dificuldades em mudar
certos paradigmas, Machado reafirma o interesse do departamento
em desenvolver tecnologias que simplifiquem a obtenção
do agregado reciclado. Possibilitando a produção
em pequena escala com custos reduzidos, eles esperam contribuir
para a superação do déficit habitacional
registrado na capital baiana.