Problemas
estruturais no sistema de saúde, como os que vêm
sendo apontados na recente crise dos hospitais no Rio de Janeiro,
não são novidade no Brasil. Estudos sobre o mau
gerenciamento da infra-estrutura e a necessidade de se projetar
melhor o ambiente hospitalar comprovam que, além de responsabilidade
política, o setor se ressente da falta de especialistas,
aqueles profissionais com capacidade para conciliar conhecimento
tecnológico com eficiência administrativa. Essa
demanda, ainda que embrionária do ponto de vista das
contratações, abre mercado para engenheiros e
arquitetos clínicos.
Para o
presidente da Associação Brasileira de Engenharia
Clínica, Antônio Gibertoni Júnior, o mercado
de trabalho para este tipo de profissional vem crescendo de
forma acelerada nos últimos cinco anos. "A necessidade
de melhor gerenciamento dos avanços tecnológicos
e os parâmetros de certificação técnica
vêm impulsionando a área. Se um aparelho está
descalibrado, a conduta médica pode ser afetada. Os hospitais
estão preocupados com qualidade", ressalta o engenheiro
eletricista.
Gerente
de engenharia clínica do Hospital Albert Einstein, um
dos mais conceituados do país, Gibertoni estima que as
mais de oito mil unidades hospitalares do Brasil absorvam apenas
300 profissionais da engenharia. "Ou seja, há muito
potencial de crescimento. Tem-se um campo vastíssimo.
Nossa previsão é dobrar o número de sócios
até o final do ano".
Demanda
antiga
O sinal
verde para a relevância desses profissionais foi dado
em 1992, quando o Ministério da Saúde (MS) elaborou
um estudo que chamava a atenção para a necessidade
de melhorar o planejamento técnico dos hospitais brasileiros.
Segundo o documento, a complexidade tecnológica crescente
do setor, os gastos com equipamentos e manutenção
não apropriados e a garantia de segurança aos
usuários tornavam necessária a presença
de um especialista capaz de integrar conhecimentos das áreas
de ciências médicas, exatas e humanas, que atuasse
na solução de problemas e treinamento nos sistemas
médico-hospitalares. "Em países como o Brasil,
a contribuição dos engenheiros clínicos
é ainda mais significativa, pois, além de proporcionarem
economia de expressivos recursos financeiros que seriam gastos
na manutenção destes equipamentos, eles orientam
a aquisição das tecnologias externas mais apropriadas",
alertava o relatório.
O estudo
demonstrou ainda a existência de um "inadmissível
e alto desperdício na prestação de serviços
de saúde": subutilização de equipamentos,
limitação da vida útil devido à
inexperiência de operadores ou falta de manutenção
preventiva; gastos adicionais com acessórios não
previstos e falta de padronização foram alguns
dos problemas encontrados pelos pesquisadores devido à
ausência de planejamento técnico.
É
nesse contexto que começou a se delinear no país
o perfil desses profissionais. "O engenheiro clínico
vem exatamente para fazer uma interface entre as equipes médica
e administrativa, tendo importância fundamental na avaliação
tecnológica da área de saúde e na tomada
de decisões", explica o engenheiro mecânico
e coordenador do curso de especialização em Engenharia
Clínica da Universidade Católica do Salvador (Ucsal),
Edson Palhares.
A abrangência da formação pode ser verificada
na grade curricular dos poucos cursos espalhados pelo país.
"O especialista recebe uma formação complementar
com disciplinas da área médica e de administração
hospitalar, tornando-o apto para intervir e contribuir para
o melhor planejamento e manutenção da infra-estrutura
hospitalar", complementa Palhares.
Migrações
A possibilidade
de sedimentação desse mercado tem provocado algumas
migrações no campo da engenharia. O caso do engenheiro
eletricista Cláudio Estêvão, com quatro
anos de experiência no setor de telecomunicações,
ilustra o interesse pelo setor da saúde, ainda que ressalvas
sejam feitas. "O mercado é promissor. O problema
é a falta de conscientização da maioria
dos gestores hospitalares quanto à necessidade de contratação
desse profissional, principalmente na região Nordeste",
avalia o engenheiro clínico que atua no Hospital Jaar
Andrade. Para Estêvão, boa parte dos administradores
não reconhece a importância deste tipo de especialista
no que diz respeito ao gerenciamento técnico, tampouco
nos resultados que essa atuação possa trazer para
as equipes médicas e para os pacientes. "Embora
a demanda esteja em plena expansão, falta ainda uma visão
mais generalizada da relevância desse tipo de mão-de-obra",
resume o engenheiro.
Planejando
espaços
Além
da manutenção e otimização de equipamentos,
a configuração do espaço e da infra-estrutura
física é a outra face do planejamento tecnológico
em ambientes hospitalares. É o que vem sendo chamado
de Arquitetura da Saúde: "Pela complexidade inerente
aos projetos arquitetônicos e de engenharia de estabelecimentos
de saúde, a especialização é necessária
como forma de melhorar a qualidade funcional destes projetos",
explica o arquiteto e engenheiro civil Antônio Pedro Carvalho,
coordenador da especialização em Arquitetura em
Sistemas da Saúde da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
A experiência
brasileira comprova que um ambiente hospitalar mal planejado
pode acarretar problemas estruturais crônicos que dificultam
o funcionamento e a segurança das atividades médicas.
Para Carvalho, o principal problema é a falta de qualificação
dos profissionais. "Diversos projetos feitos por não-especialistas
apresentam problemas gritantes em termos de soluções
funcionais, criando entraves no seu funcionamento posterior.
Outro agravante é o despreparo das vigilâncias
sanitárias, que concedem alvará de funcionamento
a estabelecimentos de saúde que não possuem em
seus quadros arquitetos especializados em análise e aprovação
de projetos", aponta.
A exemplo
do que ocorre com a engenharia clínica, a arquitetura
da saúde passa por um momento promissor no que se refere
a abertura de novas vagas. "Com o aumento da conscientização
dos administradores de unidades de saúde, a tendência
é pela maior procura de profissionais especializados
na área", prevê o arquiteto.
Oferta
de especializações
Apesar do
consenso crescente quanto à necessidade de profissionais
de engenharia e arquitetura no planejamento técnico da
saúde, a oferta de especializações por
parte das instituições de ensino é restrita.
Para se ter uma idéia das limitações, os
primeiros cursos de engenharia clínica surgiram no início
da década 90, através de um financiamento do Ministério
da Saúde aplicado em quatro universidades federais (Unicamp,
UFPB, UFRGS e UFRJ). Atualmente, apenas seis estados mantêm
cursos em funcionamento: Bahia, Minas Gerais, Paraná,
Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.
No caso
da especialização em Arquitetura da Saúde,
o primeiro curso foi realizado em 1981 pela Universidade de
Brasília, também com apoio do Ministério
da Saúde. Hoje a oferta permanece restritiva: existem
apenas dois cursos: um na Ufba e outro em uma instituição
particular, no Rio Grande do Sul. “A Bahia tem sido referência
no Brasil para estas especializações. No Nordeste,
o curso de engenharia clínica da Ucsal e de arquitetura
da Saúde da Ufba são os únicos atualmente
em funcionamento em nível regional", ressalta o
professor Edson Palhares.