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Com
uma população atual estimada em quase 2,7
milhões de habitantes, Salvador possui aproximadamente
700 mil unidades habitacionais. Desse total, cerca de
60% estão situadas em áreas de ocupação
desordenada. Além desse déficit qualitativo,
a cidade acumula um déficit quantitativo da ordem
de 100 mil moradias. Esse é o quadro que a arquiteta
Angela Gordilho encontrou ao assumir a Secretaria de Habitação
do Município (Sehab), em janeiro. Mestre em planejamento
urbano e doutora em arquitetura e urbanismo, Gordilho
estabeleceu metas objetivas para sua gestão. Nesta
entrevista à Revista Crea-BA, ela falou dos desafios
de dar início a uma política habitacional
focada no interesse social. Autora do estudo Limites do
Habitar, Gordilho reconhece que problemas acumulados durante
décadas dificilmente serão resolvidos a
curto prazo. O importante para a secretária é
imprimir um tipo de planejamento que permita ações
transversais envolvendo diferentes instâncias dos
poderes público e privado e, principalmente, a
população. Segundo ela, o Plano de Bairro
que a secretaria pretende implementar não é
somente uma ação do Município sobre
áreas específicas. É, sobretudo,
um processo de co-gestão.
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Revista Crea-BA
- Qual é o grande desafio da Secretaria de Habitação?
Angela Gordilho - Oferecer às ocupações
desordenadas melhores condições de habitabilidade
e reduzir o déficit habitacional com a construção
de novas unidades. O grande desafio é implantar uma política
de habitação de interesse social, discuti-la,
criar os meios para que ela seja executada, tendo consciência
de que nós não vamos resolver em quatro anos todos
os problemas da cidade. Nossa intenção é
consolidar uma ação pública contínua.
Um serviço que pode levar 20, 30 anos, mas com um curso
seqüencial, para que a população saiba que
pode contar com determinados serviços da cidade, independentemente
de gestões municipais.
RC - Quais as estratégias
para melhorar as condições de habitabilidade dessas
áreas ocupadas desordenadamente?
AG - Hoje, não há mais aquela
expectativa que houve no passado de derrubar as favelas para
fazer novos conjuntos. Nós não temos nem recurso
nem área disponível para fazer isso, além
da questão social que isso traria. Propomos a requalificação
dos bairros populares através da implementação
dos planos de bairro que podem ser identificados num cruzamento
com as Áreas de Especial Interesse Social (AEIS) que
foram previstas no Plano Diretor. Embora precisem ser revistas
no sentido de estabelecer critérios mais claros para
sua classificação, essas áreas constituem
um subsídio importante. O plano de bairro prevê
o diálogo com os habitantes para identificar uma estratégia
de intervenção que vai desde melhorias físicas,
urbanísticas até a geração de emprego
e renda. Enfim, é um planejamento que permite ações
transversais. Isso é importante inclusive para que esse
plano possa prover projetos que busquem financiamento. Temos
que buscar uma política de parcerias, federal - estadual
e intermunicipal - metropolitana. Nossa área continental
disponível é pequena, temos de manter esse diálogo
com municípios vizinhos no sentido da expansão
da ocupação urbana contínua.
RC - Temos espaço para
a construção das unidades necessárias para
vencer o déficit habitacional?
AG - Ainda estamos fazendo o levantamento
desses vazios existentes no município, mas eles devem
corresponder de 20% a 30% da área total. Entre esses
vazios existem áreas que não podem ser ocupadas
(áreas de risco, de proteção ambiental).
Ou seja, nos resta uma pequena área para investimento
em termos de novas habitações que venham atender
ao déficit quantitativo. Como alternativa estamos buscando
a reciclagem de edificações ociosas e a densificação
qualitativa de áreas ocupadas. Determinadas áreas
da cidade já estão com índice de ocupação
muito alto, mas existem outras com densidade relativamente baixa.
Com o plano de bairro, podemos qualificar o crescimento e a
densificação desses locais, seja pelo aproveitamento
de pequenos vazios ou pela verticalização de unidades
existentes, além da regularização fundiária.
RC - Dentro dessa perspectiva,
como a senhora avalia a importância da implementação
da arquitetura e engenharia públicas pelo Estado?
AG - Eu acho que nós temos que ter
uma política de interesse social forte no direito da
habitação de qualidade, e isso só será
possível quando tivermos um fundo federal de habitação.
Esse fundo é um projeto que está sendo implantado
pelo Ministério das Cidades, porém ainda não
está regulamentado nem aprovado enquanto forma efetiva
de subsídio. Na Sehab temos o escritório público,
que se propõe a ajudar as famílias carentes com
a elaboração de projetos de melhorias das suas
casas, atuando exclusivamente de recursos do município.
Estamos propondo parceria com a Caixa Econômica Federal
para programas de auxílio à construção
das casas, porém o trabalho do escritório tem
ficado mais restrito a fazer o projeto e viabilizar o alvará
e a regularização da habitação.
Apesar das dificuldades em viabilizar um fundo municipal sem
o suporte de uma política nacional, estamos propondo
a sua regulamentação para Salvador. Como o Crea
tem fortalecido a idéia dos escritórios públicos,
penso que ele talvez possa colaborar nesse ponto.
RC - Quais os outros setores
da sociedade que poderiam colaborar para a superação
desses desafios?
AG - Na verdade, o problema da habitação
não é apenas uma questão de produção
da unidade habitacional, é um problema social. Por isso
temos de estimular processos de co-gestão, como o plano
de bairro, que não é somente uma ação
física do município sobre o local. Vemos muitas
obras feitas pontualmente com as quais a população
às vezes não tem compromisso. Ou a cidade faz
esse pacto social com uma trajetória, uma política
de intervenção ou os desafios ficam mais difíceis
ainda. As universidades também têm um papel importante
na capacitação dos futuros profissionais que irão
se debruçar sobre essa cidade, na qual 32% da área
é ocupada de forma desordenada. O grande desafio da arquitetura,
da engenharia e da geologia para o século 21 é
intervir nesses imensos aglomerados urbanos de forma criteriosa.
Precisamos avançar no trabalho com essa cidade informal
que se fez nos últimos 50 anos e com a qual nós
ainda não temos experiência acumulada para intervenções
de melhoria.