Carbono
a peso de ouro
Protocolo
de Kyoto transforma tecnologia limpa num ótimo negócio
Em
desenvolvimento e com boas possibilidades de pautar etapas do seu
crescimento industrial em tecnologias limpas, o Brasil tem potencial
para reter pelo menos 10% das negociações feitas no
mercado de crédito de carbono. Dentro desse panorama, a Bahia
ocupa um lugar de destaque, tendo a primeira metodologia brasileira
aprovada pelo Conselho Executivo de Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo, em Genebra. Com a validação do Protocolo de
Kyoto, o projeto de captação do metano desprendido
pelo lixo depositado no Aterro Metropolitano Centro, desenvolvido
pela Vega Bahia (ver boxe), depende apenas da aprovação
da Organização das Nações Unidas (ONU)
para começar a comercializar os créditos.
O protocolo estabelece que os países desenvolvidos devem
reduzir em média 5,2% a emissão dos gases de efeito
estufa no período entre 2008 e 2012. Reconhecendo as dificuldades
para as nações altamente industrializadas alcançarem
essas metas internamente, o acordo permite que empresas e instituições
de locais não incluídos no Anexo (grupo com metas
a cumprir) vendam suas cotas de redução. Os valores
usados para o cálculo são os níveis registrados
em 1990, sete anos antes da elaboração do documento
que foi assinado imediatamente por 84 nações.
O compromisso, no entanto, não entrou em vigor porque dependia
da adesão das nações responsáveis pela
emissão de pelo menos 55% do total desses gases poluentes,
o que aconteceu apenas no final de 2004, com a entrada da Rússia
no grupo de signatários. Juntos, os 141 participantes emitem
62% dos gases liberados na atmosfera terrestre. A cota de redução
é aplicada apenas aos 35 países do Anexo 1, restando
aos que estão em desenvolvimento a recomendação
para que reduzam as emissões o quanto for possível.
Apesar de responder por pelo menos 25% da poluição
global, os EUA não ratificaram o protocolo, sob a alegação
de que esse acordo ambiental traria danos para sua economia.
Panorama baiano
Apenas em 2003, o uso de gás natural em lugar de combustíveis
fósseis mais poluentes reduziu em 1,2 milhão de metros
cúbicos a emissão de CO2 na planta da Bahiagás.
É o que indica uma pesquisa desenvolvida pela empresa em
parceria com as universidades Salvador (Unifacs) e Federal da Bahia
(Ufba). Mesmo não tendo sido direcionado para o mercado de
carbono, o estudo é um indicativo do potencial do estado
para participar das transações. "É uma
oportunidade efetiva para o parque industrial baiano pleitear créditos
de carbono", analisa o coordenador do Núcleo de Pesquisa
em Energia e Sistemas Energéticos da Unifacs, Osvaldo Soliano.
A validação dos projetos envolve uma série
de etapas que começa com a contratação de uma
empresa credenciada para avaliar o estudo, passa pela Comissão
Interministerial de Mudança Global do Clima (MCT) e termina
com a aprovação da ONU. A complexidade desse processo
foi uma das motivações para que a Secretaria de Meio
Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) criasse um núcleo
dedicado a apoiar projetos de mudança climática e
desenvolvimento limpo. Voltado inicialmente para a identificação
de oportunidades e orientação de empreendimentos,
o trabalho está passando por uma reformulação.
"Os empresários ainda não estão devidamente
sensibilizados para o potencial de aproveitamento dos seus negócios",
admitiu o superintendente de Meio Ambiente, Emanuel Mendonça,
demonstrando a necessidade de assumir uma nova postura. A idéia
é articular várias secretarias em uma rede, que deve
contar também com a participação da iniciativa
privada para a criação de programas de desenvolvimento
limpo. "Já temos uma metodologia aprovada para aterros,
os custos para implantação em pequena escala são
elevados, mas a viabilidade econômica aumenta se reunirmos
várias unidades em um só projeto", analisa.
Mesmo
sem um método de cálculo aprovado em nenhuma das instâncias
de tramitação dos projetos, o uso de gás natural
nos parques industriais é visto de forma otimista por Mendonça.
"Já estamos trabalhando junto com o Cofic (Comitê
de Fomento Industrial de Camaçari) nas reuniões sobre
o núcleo e vejo a possibilidade de elaborar um protocolo
de redução no Pólo Petroquímico, o que
também pode ser feito com as fábricas de celulose
do sul do estado", estima o superintendente. Embora atividades
de florestamento e reflorestamento também possam ser integradas
ao mercado de carbono, através do seqüestro do CO2 liberado
por descargas de carros e chaminés industriais na atmosfera,
a Bahia ainda não tem projetos bem definidos nessa área.
| Processo
de captura
A
transformação dos 5 milhões de toneladas
de lixo do aterro em um negócio rentável exigiu
um investimento de R$10 milhões em 2,5 anos para montar
um sistema de exaustão forçada para capturar
o metano que segue para queima em flare enclausurado, evitando
sua liberação para a atmosfera. A estimativa
é que em 20 anos, vida útil média de
um aterro, sejam captados entre 8 e 10 milhões de toneladas
de carbono, o que representa uma quantidade de gás
muito maior, já que o metano é considerado 21
vezes mais agressivo que o dióxido de carbono (CO2),
usado como base de cálculo.
A venda antecipada, com base no preço praticado atualmente
pela Bolsa de Chicago, garantiria à Vega, no mínimo,
US$ 40 milhões, mas a expectativa é que, com
a aproximação do período de vigência
do acordo (2008 - 2012), o valor possa duplicar. A intenção
dos países signatários é que novos objetivos
sejam estabelecidos a partir de 2012, e é exatamente
nesse ponto que reside o risco do projeto da multinacional
francesa. "Não sabemos o que irá acontecer
na segunda etapa, o Brasil pode ser colocado entre os países
com meta de redução", declara o gerente
da Vega, Artur Tanuri, lembrando que o Brasil ocupa a 17ª
colocação no ranking dos poluidores.
Caso as empresas brasileiras não possam continuar no
grupo vendedor do mercado de carbono, o resultado financeiro
desse e de outros projetos em desenvolvimento - mais de 20
estão cadastrados no Ministério da Ciência
e Tecnologia (MCT) - ficará muito aquém do esperado.
"Até 2012 teremos 2,5 milhões de toneladas
de carbono. Se a comercialização for encerrada
nessa época, provavelmente ficaremos sem lucro, mas
também sem prejuízo", avalia Tanuri. Embora
muitos estudos estejam sendo feitos em todo o país,
apenas a Vega e a Nova Gerar (Rio de Janeiro) tiveram seus
projetos validados pelo MCT como Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo (MDL). |
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Altas
temperaturas
Embora
o aumento de 0,7º C na temperatura média da Terra
registrado entre 1880 e 2000 possa parecer insignificante,
o desprendimento de grandes blocos de gelo dos pólos
e inesperadas ondas de calor (responsáveis pela morte
de 30 mil europeus em 2003) têm indicado que as mudanças
climáticas estão acontecendo em ritmo acelerado.
Com esse panorama, a projeção de temperatura
média para 2100 pula de 16º C para 19º C,
o que representaria uma elevação de quase 5
graus em um século. Entre os resultados previstos pelos
climatologistas estão a maior ocorrência de fenômenos
como tempestades e furacões,e a desertificação
de áreas castigadas por secas constantes.
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Grupos
de poluentes
Produzido
em grande quantidade, o dióxido de carbono (CO2) é
considerado o maior responsável pelo aquecimento global.
O grupo de poluentes considerado pelo protocolo inclui o metano
(CH4), o monóxido de carbono (CO), o óxido nitroso
(N2O), os dióxidos de nitrogênio e um grupo formado
por aldeídos, cetonas e olefinas, conhecido pela sigla
NMVOC (Compostos Orgânicos Voláteis não
Metânicos). Independentemente do gás envolvido
no projeto de redução de emissões, o
resultado é mensurado em toneladas de carbono, a partir
de fatores de cálculo específicos para cada
substância. |
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