Discutir
e participar da elaboração de propostas de universalização
da assistência técnica como forma de amenizar as
desigualdades socioespaciais nos territórios urbano e
rural foi um dos principais eixos de discussão do seminário
Engenharia, Arquitetura e Agronomia Públicas Um Direito
do Cidadão, promovido pelo Crea-BA em parceria com o
Confea. O evento, realizado em outros 16 estados, aconteceu
na penúltima semana de setembro, em Salvador. O objetivo
foi detectar e reunir experiências de práticas
e projetos que contribuem para a inserção do segmento
tecnológico como um direito de todos, a exemplo de outras
áreas, como a saúde e a Justiça.
As propostas levantadas nos encontros regionais foram encaminhadas
e debatidas no Seminário Nacional de Assistência
Técnica a Moradia, no início de outubro, em Campo
Grande, com intuito de construir e ampliar o alcance de políticas
públicas na engenharia e arquitetura públicas.
Foco na cidadania
Na abertura do debate baiano, o integrante do Núcleo
de Economia Solidária da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, engenheiro agrônomo e florestal Sebastião
Pinheiro, ressaltou a importância dessa discussão
ao colocar a tecnologia no âmbito da cidadania. "Quando
se fala em engenharia, arquitetura e agronomia públicas,
é necessário que tenhamos claro a importância
dessas atividades no que elas têm de interesse público.
Trata-se de algo diretamente ligado à melhoria da qualidade
de vida da população. Esse fator deve sobrepor-se
às distorções impostas pela lógica
do mercado, onde se perde a perspectiva da cidadania",
afirma Pinheiro.
O direito à cidade
Do ponto de vista da arquitetura e da engenharia públicas,
a secretária de Habitação do Município
(Sehab), arquiteta Ângela Gordilho, uma das debatedoras
do evento, explicou que o desafio é justamente lidar
com o ambiente construído e o déficit qualitativo
da cidade, que precisam ser objetos deste tipo de política.
"Evidente que isso só se faz dentro de uma expectativa
de fundo público que privilegie essas ações
e que dialogue com a população nas grandes cidades",
conclui.
Embora os caminhos para a implementação de políticas
públicas estejam naturalmente vinculados às instâncias
governamentais, para o professor e arquiteto Marcos Paraguassu,
nesta esfera também existem conflitos que devem ser levados
em conta. "Há uma tensão entre público
e privado que torna as coisas extremamente difíceis de
serem implementadas. A importância deste tema só
é adquirida no plano político, sabendo exatamente
que o público deveria prevalecer sobre o privado, embora
isso nem sempre aconteça", observa. Apesar de todos
os problemas, a professora Débora Nunes, da Universidade
de Salvador (Unifacs) e da Universidade Estadual da Bahia (Uneb),
vê um contexto favorável para a luta por uma engenharia
e arquitetura públicas devido à grande demanda
social por uma contribuição do segmento tecnológico.
Segundo ela, soma-se aí o fato de haver crescimento dessa
reivindicação na atual conjuntura política
do país por parte dos movimentos da sociedade civil organizada
e das entidades de classe. "No caso dos profissionais,
há também uma perspectiva de abertura no campo
de trabalho que é legítima e deve ser defendida",
destaca.
Extensão rural e agronomia pública
Temas envolvendo as dificuldades da extensão rural e
os questionamentos sobre a relação entre o profissional
e o agricultor marcaram os principais debates sobre agronomia
pública. Os palestrantes demonstraram como o sistema
de assistência técnica brasileiro foi desestruturado
durante o governo Collor e tentaram elaborar propostas de revitalização
para o setor a partir de novos conceitos que envolvessem políticas
públicas mais participativas.
A representante da Federação das Associações
e Sindicatos dos Trabalhadores da Extensão Rural e do
Setor Público Agrícola do Brasil (Fazer), engenheira
agrônoma Maria Rosa, explica que a extensão rural,
enquanto serviço público e gratuito, já
é prevista em legislação. “Isto é
lei, não se discute. O que é preciso discutir
é para quem ela serve. Durante muito tempo a extensão
serviu a interesses não-públicos", afirma.
Para a engenheira, é preciso pensar a questão
dentro de um outro modo de produção: "Um
serviço público de extensão como agronomia
pública só faz sentido num modelo de agricultura
familiar, que é, de fato, o sustentáculo da produção
agrícola do país, e não o agronegócio
como é divulgado na mídia", complementa.
O assessor nacional da Cáritas Brasileira, engenheiro
agrônomo Luís Cláudio, entende que a própria
restrição na noção de serviço
público também deve ser repensada. "Precisamos
ver se queremos a extensão apenas como um serviço
ou se a queremos como método, uma forma de se repensar
o próprio conceito de agronomia pública e da extensão
rural", ponderou.