Um
novo referencial geodésico está em vigor no país
desde fevereiro, quando o Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) publicou a Resolução
01/2005. Trata-se do Sistema de Referência Geocêntrico
para a América do Sul (Sirgas). Extensivo às Américas
e adotado em todo o território nacional, o Sirgas altera
as características do Sistema Geodésico Brasileiro
(SGB) e do Sistema Cartográfico Nacional (SCN). A medida
foi tomada para unificar e substituir gradativamente os formatos
até então vigentes no Brasil, buscando solucionar
as falhas recorrentes e tornar o padrão brasileiro afinado
com outros mais avançados, adotados hoje em boa parte
do mundo.
Em termos práticos, a mudança para o Sirgas
moderniza os parâmetros atuais, melhora o desempenho,
reduz o custo e possibilita a compatibilização
com as tecnologias mais eficientes. É baseado na adoção
do já conhecido Sistema de Posicionamento Global (GPS),
cuja exatidão é pelo menos dez vezes maior do
que os padrões clássicos, até então
utilizados no país, como triangulação,
poligonação e trilateração. "Esta
transformação se torna importante porque os sistemas
geodésicos são um conjunto de marcos materializados
no terreno, cuja posição serve como referência
exata para auxiliar na execução de projetos e
obras de engenharia, a exemplo da construção de
estradas, pontes, barragens, mapeamento territorial, demarcação
de fronteiras, geofísica, pesquisas científicas
e outras atividades que envolvem planejamento geográfico",
explica o engenheiro agrimensor e conselheiro do Crea-BA, Cristian
Sanchez Nunes.
Busca pela eficiência
O Sirgas foi criado em 1993, durante a Conferência Internacional
para Definição de um Datum Geocêntrico para
a América do Sul, em Assunção, Paraguai.
Na conferência, diversas instituições questionaram
a eficiência dos métodos clássicos de referências
utilizados no continente. Unificar o sistema através
do Sirgas foi apresentado como a solução para
falhas e os problemas detectados.
Durante as etapas de estudo, foram realizados dois seminários
no Brasil. O primeiro, em 2000, definiu que o sistema seria
o geocêntrico (que usa a Terra como centro de referência).
Além disso, foram criados diversos grupos de trabalho
para orientar os usuários quanto à importância
deste novo parâmetro. Foi nessa época que o IBGE
resolveu criar o Projeto Mudança do Sistema Referencial
Geodésico (PMRG), com o objetivo de acompanhar o processo
de unificação do Sirgas. O segundo seminário,
realizado em 2004, definiu um período de transição
de dez anos para que os usuários se adaptassem ao Sirgas.
Durante esse período, até 2014, o sistema será
utilizado em paralelo aos sistemas já existentes no país:
o SAD69 e o Córrego Alegre.
Esforço conjunto
A implantação do Sirgas conta com o patrocínio
de diversas instituições das Américas e
Europa, representadas por mais de 30 organismos. Mas vêm
da Universidade de New Brunswick (Canadá) os recursos
técnicos para aderir ao sistema, já que a universidade
possui uma equipe especializada em geodésia aplicada.
"A participação canadense é muito
importante, porque vai alavancar o período de transição
do projeto, principalmente pelo apoio técnico",
afirma o engenheiro Luiz Paulo Souto Fortes, diretor de geociências
do IBGE e responsável pelo PMRG.
Fortes esteve em Salvador no início do mês de
outubro a convite da Associação dos Engenheiros
Agrimensores do Estado da Bahia, com apoio do Crea-BA, onde
discutiu o tema em um debate realizado no auditório do
Conselho. Sobre quanto vai custar o projeto, o engenheiro informa
que não é possível fazer esse cálculo.
"Isso vai depender de quando o usuário vai migrar
de sistema, o que pode durar dez anos". Até lá,
ele espera que ocorra a participação da sociedade
neste processo e acredita que não haverá conflitos
nem dificuldade para sua instalação. "O Sirgas
é citado em diversos fóruns como o maior êxito
de referência no mundo. A prova disso é o envolvimento
de vários setores no projeto", argumenta.
Última barreira
Apesar de todo o esforço para a mudança, o novo
sistema necessita ainda ser incorporado pelos técnicos
e profissionais produtores de cartografia e de informações
espaciais que estão na ponta da sua utilização.
Segundo Fortes, é preciso que todos os usuários
efetuem a mudança dentro do prazo estabelecido. "Os
grupos de trabalho estão atuando também para conscientizar
a sociedade sobre a importância do projeto, por isso é
preciso que todos adotem o Sirgas", ressalta.
Para o presidente da Associação dos Engenheiros
Agrimensores do Estado da Bahia (Aseab), engenheiro agrimensor
Antônio Machado, a adoção do novo modelo
contribui consideravelmente para o avanço do sistema
de coordenadas brasileiro. "É fundamental que todos
os profissionais, tanto os que já estão no mercado
quanto aqueles que estão saindo da universidade, estejam
atualizados com as novas tecnologias. Essa atualização
deve ser feita o mais rápido possível sob pena
de o profissional perder mercado", alerta. Machado, que
também é coordenador da Câmara de Agrimensura
do Crea-BA, explica que a globalização torna obrigatória
a atualização com o que há de mais moderno
em termos de equipamentos e programas. "Só assim
é possível acompanhar os avanços a que
assistimos nos campos da agrimensura, da cartografia e da geografia",
conclui.