Entrevista
Gestão integrada

Com Jonas Dantas

Eleito para um mandato de três anos, o engenheiro agrônomo Jonas Dantas assume a presidência do Crea-BA pela primeira vez e fala das mudanças e dos projetos para sua gestão. Em entrevista à Revista Crea-BA, o presidente reafirma a importância de integração das entidades da área tecnológica e trata este envolvimento como uma de suas prioridades. Prevê o avanço do processo de interiorização do Conselho, com a reestruturação das inspetorias.
Dantas também enfatiza o papel social e político do Sistema Confea/Crea, apontando este como um dos grandes desafios para os próximos anos. Para o novo presidente, a contribuição para mudanças na atual formação dos profissionais, a promoção de capacitação e debates, além de uma maior intervenção nos temas fundamentais de interesse público, também serão algumas de suas diretrizes de ação.

 

Revista Crea-BA - Quais prioridades o senhor destacaria para este início de mandato?

Jonas Dantas - Num primeiro momento, temos a preocupação de efetivar melhorias nos procedimentos administrativos. Isso nos remete a uma avaliação da infra-estrutura atual, diante da demanda crescente dos serviços na sede e nas inspetorias. Num segundo momento, temos a questão de natureza política. Isto é, empreender o projeto de maior aproximação com as entidades, fundamentais na implantação de uma política de valorização profissional. Nós assumimos o Crea-BA numa situação bastante admirável, tanto em termos administrativos quanto em termos políticos. Temos não só que garantir essas conquistas, mas avançar.


RC - O senhor obteve uma votação expressiva no interior do estado. Como pretende atuar junto às inspetorias?

JD - As inspetorias são, na realidade, instâncias e fóruns fundamentais. O processo de interiorização deve se constituir num projeto que afirme o significado e a importância que o interior tem no crescimento do Sistema Confea/Crea. Nós iremos, através de um diagnóstico que está sendo elaborado, dar às inspetorias condições para que possam desenvolver suas atividades de acordo com as urgências de cada região. Incluindo aí as demandas estruturais de nossas regionais. Focaremos a questão da valorização profissional, melhorando inclusive o que chamamos de "efetiva aceitação" dos profissionais em relação ao Sistema. Tanto no interior quanto na capital, queremos garantir a devida e necessária participação dos movimentos sociais e populares que atuam nestes municípios, discutindo questões eminentes como sustentabilidade, conferências das cidades e planos diretores. Nosso objetivo é prestar aos profissionais das diferentes localidades o melhor atendimento possível.


RC - Na sua avaliação, qual o principal entrave do Sistema Confea/Crea?


JD - É a falta de politização em relação ao seu papel na agenda nacional. Precisamos reverter essa questão por meio da política de valorização profissional. Isso passa obrigatoriamente pelo tipo de formação oferecida nas instituições de ensino do país. A área tecnológica e o Conselho que a representa precisam estar inseridos nos mais variados fóruns. Pretendemos criar uma articulação maior entre os Regionais e o Confea na busca de uma política sólida e de visibilidade frente aos temas de interesse público e dos profissionais como o cumprimento do salário mínimo profissional, a participação nas gestões públicas.


RC - É nessa direção que o senhor situa as funções sociais e políticas do Crea-BA?

JD - O Crea-BA tem, efetivamente, como autarquia federal, o papel preponderante e constitucional de promover a fiscalização do exercício das atividades profissionais, mas deve ir além dessa prerrogativa. Pelo perfil da instituição, é importante reconhecer que podemos contribuir na construção de políticas públicas de desenvolvimento e de inclusão. Nesse sentido, nós temos uma proposta clara, que é a discussão da Engenharia, Arquitetura e Agronomia públicas como resgate da função social do Sistema Confea/Crea como um todo. Queremos mostrar que a base tecnológica deve estar diretamente ligada ao que representa em termos de ganhos sociais efetivos, claros. Isso faz com que a sociedade, ao ter acesso à assistência técnica e às discussões de questões como tecnologias de produção agropecuária, saneamento básico, recursos hídricos, esgotamento sanitário e outros mais possa efetivamente obter do Crea e do Confea o retorno de que ela necessita.


RC - A área tecnológica é responsável hoje por cerca de 70% do PIB do país. Por outro lado, também é responsável - direta ou indiretamente - por efeitos como poluição, desmatamento acelerado, problemas urbanos, dentre outros. Como o senhor vê, existe este paradoxo. De que forma o Sistema Confea/Crea deve agir sobre isso?

JD - Há, na realidade, uma questão de origem. Lamentavelmente, a nossa formação, a partir da política educacional implantada no Brasil, derivou para a aceitação de um modelo que tem penalizado, e muito, nossos recursos naturais. A departamentalização do conhecimento, ocorrida no final da década de 60, criando segmentos como "área tecnológica", "área de ciências exatas", "área de ciências humanas" excluiu do profissional o direito a uma formação mais ampla, voltada para o senso crítico, isto é, capaz de se preocupar com as conseqüências sociais e ecológicas ou a quem interessa economicamente essa tecnologia que estamos desenvolvendo. Mas hoje já existe, dentro da discussão da formação do profissional, uma inserção maior das questões sociais e da visão crítica em relação a temas como desenvolvimento de matriz energética, uso de tecnologia na agricultura, biotecnologia, transgênicos, aproveitamento de recursos hídricos. O profissional começa a ter ciência da sua importância como profissional e como cidadão. E o Sistema pode ajudar na aceleração desse processo de discussão de um novo modelo de desenvolvimento para o país.


RC - Nos últimos anos, o Crea-BA tem se tornado uma entidade atuante em diversos temas de interesse público, como a defesa do Rio São Francisco, campanha por acessibilidade nas cidades e fiscalizações preventivas, dentre outros. Como a sua gestão pretende lidar com este tipo de intervenção política e social?


JD - Daremos, mais do que nunca, o apoio que for necessário. Entendemos que o Conselho e o Sistema precisam estabelecer parcerias com os mais diferentes agentes sociais. Isso tem repercutido em uma elevação no desenvolvimento da instituição. Essa política de aproximação do Crea-BA com outras entidades e instituições tem sido extremamente exitosa e vamos concentrar esforços para que essa integração avance no sentido de tornar nossas ações cada vez mais educativas, a exemplo das Fiscalizações Preventivas Integradas (FPIs) e do alinhamento do Conselho com a sociedade e suas instâncias de decisão (Ministério Público e demais órgãos públicos das esferas federal, estadual e municipal). Devemos orientar com responsabilidade política e social.

 

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