O
arquiteto José Quintão é doutor em arquitetura.
Com diversos trabalhos sobre construções históricas,
fachadas de igrejas e linguagem arquitetural, Quintão
esteve em Salvador para divulgar os cursos de Verão oferecidos
pela Universidade do Porto, onde leciona. Leia trechos da conversa.
Arquitetura contemporânea - Eu sou meio
cético em relação à arquitetura
contemporânea. Até porque há várias
arquiteturas. Uma parte delas segue uma certa tranqüilidade.
Depois, há outra que se poderia chamar, com um pouco
de maldade, o "show off". Há coisas gratuitas
nesta arquitetura que se faz com muito di-nheiro e que diz muito
pouco. É arquitetura efêmera, que daqui a 20 anos
vão colocar abaixo. Falta saber para que se constrói.
Cada vez mais, o arquiteto precisa ouvir ou- tros segmentos
do cotidiano, principalmente o social.
Europa e Portugal- Na Europa vai tudo bem
de saúde financeira, mas não no que diz respeito
a uma arquitetura social, salvo excepções. Em
Portugal, paralelamente a este tipo de arquitetura, que se faz
e que é muito cara, há uma outra, a tal tranqüila,
que, dada a cultura arquitetônica da população,
de maneira geral, ser ainda bastante incipiente, não
é apreciada.
Fachadas clássicas no Brasil - Em uma
palavra: é maravilhoso. O nosso barroco português
nunca se desenvolveu em termos de expressividade como ocorreu
na Itália, na Baviera e no Brasil. Meu grande espanto
é: por que os portugueses aqui conseguiram dar esse salto
imenso na criatividade do Brasil (Colônia) e o mesmo não
ocorreu em Portugal? Uma das razões seria o fato de a
sociedade daqui ter sido mais permissiva do que em Portugal.
Ou-tra explicação é que toda a sensualidade
do povo brasileiro (autóctone) foi transmitida à
arquitetura. Muito dessas arquiteturas, esculturas e pinturas
barrocas são extremamente sensuais. Apesar de em Portugal
as igrejas não terem atingido este nível de expressividade,
no Brasil há menos variedade tipológica.
Álvaro Siza na arquitetura portuguesa -
Álvaro Siza é o maior arquiteto vivo português
e um dos melhores do mundo. É projetista e tem tudo o
que é preciso para ser arquiteto: uma imensa cultura
ge-ral, não apenas arquitetônica, e ao mesmo tempo
é um homem extremamente humilde. Lidar com a relação
entre razão e emoção, acho que só
os grandes arquitetos é que sabem fazer. Para os grandes
inovadores da linguagem arquitetural, o equilíbrio entre
emoção e razão é um constante desequilíbrio
sabiamente controlado, e o Siza consegue-o como poucos•