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Entrevista
A
batalha pela TV digital
Com Tome, pesquisador do Sistema Brasileiro de TV Digital
| O
Brasil assiste a um intenso debate sobre a implantação
da TV digital. A questão afeta diretamente profissionais
do sistema Confea/Crea. Engenheiro eletricista pela Unicamp,
pós-graduado em Gestão de TI, Takashi Tome,
que atuou nas pesquisas do Sistema Brasileiro de TV Digital
(SBTVD) realizado pelos consórcios universitários
no país, fala das implicações envolvidas
na escolha do modelo de sistema ideal.
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Revista
Crea-BA -OAlém dos três padrões apresentados,
haveria uma quarta opção?
Takashi Tome - Existem diversas diferenças
entre os sistemas ATSC (EUA), DVB-T (Europa) e ISDB-T (Japão),
assim como existem muitos pontos em comum. Para entender essas diferenças,
devemos olhar as condições que as ge-raram. O sistema
ATSC é um sistema monoportadora, que apresenta a vantagem
de uma melhor cobertura com a mesma potência, se comparado
ao DVB e ISDB. Foi concebido para prover o sinal sobre grandes extensões
(planas), que é a característica dos Estados Unidos.
Já o DVB é baseado no COFDM, que dá uma maior
robustez contra ecos. É adequado para cidades congestionadas
e topografia acidentada, como na Europa. O ISDB partiu do DVB e
incluiu algumas melhorias como o espalhamento temporal e a segmentação
do espectro, o que lhe confere maior robustez nas aplicações
para recepção móvel, bem como flexibilidade
de uso. Mas aí a Europa desenvolveu uma nova versão,
o DVB-H, destinado especificamente aos receptores portáteis,
meio que empatando o jogo. Isso sem falar nas outras tecnologias,
como o DMB (Digital Multimedia Broadcasting), desenvolvido pelos
países asiáticos, especialmente a Coréia; o
ISDB-Tsb (ISDB de faixa estreita), do Japão; e o DAB-BWS
(Digital Audio Broadcasting/Broadcasting WebSite), da Europa, que
servem para transmitir vídeo, áudio e dados para receptores
portáteis e móveis. Enfim, uma salada.
RC
- Além dos três padrões apresentados, haveria
uma quarta opção?
TT
- Existe, sim, o chamado Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD).
Durante o ano de 2005, foi realizado um trabalho intenso de P&D,
e geramos diversas soluções tecnológicas. Incorporando
algumas "peças" importadas - como por exemplo o
codec de áudio, que é uma área já madura
- podemos criar um sistema totalmente novo, e muito mais adequado
às nossas condições, sejam técnicas
(condições de propagação), sejam sociais
(aplicativos para inclusão social).
RC - O País teria tecnologia
para desenvolver um padrão brasileiro de TV digital?
TT - Em termos de tecnologia, sim. As pesquisas
realizadas em 2005 mostraram isso. Obtivemos boas soluções
para as áreas de modulação, codificação
de vídeo, middleware, aplicativos e software de autoria.
Olha que fazer isso em questão de oito meses não é
pouca coisa, é algo de tirar o chapéu. Em termos de
mercado, procede a preocupação do governo de não
ficarmos isolados e buscarmos parcerias. Existem duas grandes vantagens
em desenvolvermos um padrão nacional. A primeira, para o
nosso setor, é que abriríamos um belo mercado de trabalho
e teríamos a oportunidade de adensar a cadeia produtiva do
Complexo Eletrônico. A segunda, mais importante, é
que criaríamos um sistema de TV digital adequado à
nossa realidade: um sistema feito para atender tanto a ricos como
a pobres, um sistema feito tanto para uma imagem perfeita quanto
para promover a inclusão social.
RC
- Quais parâmetros deveriam nortear a implantação
da TV digital no Brasil?
TT - Do ponto de vista de enge-nharia, é
uma oportunidade ímpar para adensarmos o Complexo Eletrônico
da Nação, especialmente se considerarmos que esse
setor tem apresentado déficits anuais da ordem de US$ 6 bilhões.
Importamos, por ano, seis vezes o que a Embraer suadamente consegue
exportar. É uma situação muito ruim para ficarmos
apenas de braços cruzados. Um segundo aspecto que considero
muito importante é que chegamos ao terceiro milênio,
a famosa "era da informação". Nessa nova
era, a informação passa a ser a principal mercadoria.
E temos tudo para deslancharmos como um grande produtor mundial
de programas multimídia, a mercadoria por excelência
dessa era. Esses produtos dependem de dois insumos básicos:
competência em software e criatividade. São coisas
que temos de sobra. Assim, as definições sobre a TV
digital deveriam olhar com carinho para esses dois pontos.
RC
- Do ponto de vista da engenharia, quais os impactos da nova TV?
TT - Isso depende muito da solução
que for adotada. Em um extremo, podemos importar tudo, sobrando
pouco para os profissionais da área fazerem. Em outro extremo,
poderíamos fazer tudo, criando um imenso mercado de trabalho
em vários segmentos: equipamentos de transmissão,
receptores, design de circuitos integrados, produção
de equipamentos auxiliares tais como transladadores de freqüência,
cabeçais de antena coletiva, etc. Isso para não falar
nas áreas de software e de produção de conteúdo:
sistema operacional, middleware, editores de aplicativos. Na prática,
devemos ficar no meio-termo. Em termos de software, temos boas chances
nas áreas de middleware, ferramentas para autoria (para a
criação de programas multimídia) e aplicativos
interativos. Em hardware, depende da decisão governamental
sobre o padrão (não tanto sobre ser o padrão
x ou y, mas sim se iremos importar tudo ou se teremos a incorporação
de soluções nacionais).
RC - O Confea aprovou proposta pela
participação da sociedade no processo de esco-lha
do modelo. Como o senhor vê este posicionamento?
TT - Eu acho extremamente salutar. Uma decisão
dessa magnitude não pode ser tomada sem a parti-cipação
da sociedade. Eu tive a felicidade de participar da Consulta Pública
291 da Anatel, em 2001. Aprendemos bastante naquele processo. Por
exemplo, a necessidade do uso de software livre como um mecanismo
para abrir a parti-cipação para novos atores foi uma
das contribuições surgidas naquela Consulta.
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