Entrevista
As várias faces de uma cidade dividida

Com Gilberto Corso, arquiteto e organizador da pesquisa Como anda Salvador e sua Região Metropolitana

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Ufba, o arquiteto Gilberto Corso organizou, juntamente com a professora Inaiá M. de Carvalho, a pesquisa Como anda Salvador e sua Região Metropolitana. O trabalho resultou no livro homônimo que reúne artigos de vários autores, além de mapas e gráficos que dimensionam a maneira como a capital baiana está estruturada. Doutor em geografia pela Unesp, com mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Ufba, Corso fala sobre os aspectos priorizados nesse estudo coletivo que revela os efeitos da segregação socioespacial na cidade.


Revista Crea - Como surgiu a pesquisa e qual o seu objetivo?

Gilberto Corso - A pesquisa reuniu um grupo de pesquisadores que já trabalhavam com a temática - professoras Inaiá Carvalho, Angela Gordilho e eu, e se integra numa rede nacional que vem estudando os efeitos da segregação socioespacial em diversas metrópoles brasileiras. O objetivo foi estudar a geografia social da RMS através da espacialização da distribuição da riqueza e da pobreza urbana, colocando em contexto geográfico as desigualdades sociais, as composições ocupacionais, as dinâmicas demográficas e as condições de vida da população.

RC - Fale sobre as divisões socioespaciais existentes na cidade

GC - Simplificando, podemos dizer que Salvador é uma cidade dividida. De um lado, temos uma área "superior", que seria composta pelo Centro Tradicional e pela Orla Atlântica, sendo esta área definida pela Avenida Paralela, que é praticamente uma fronteira entre a cidade habitada pela classe média e a "outra". Esta é a cidade onde estão os equipamentos urbanos, onde o mercado imobiliário formal tem uma expressão mais vigorosa, onde os mapas turísticos mostram o que se imagina que é Salvador. Do outro lado, temos o que se chama de "miolo" que é a área entre a Avenida Paralela e a BR-324, e o Subúrbio Ferroviário, que são as áreas populares menos assistidas e com habitações precárias. De qualquer modo, a divisão acima é, de fato, uma simplificação, pois a cidade é multifacetada e em todas as áreas existem situações de proximidade geográfica e distância social.


RC - Podemos falar em apartheid racial na ocupação do espaço urbano?

GC - Não. Esta afirmação não retrata a realidade. Existe segregação e ela tem um componente e uma explicação na desigualdade social. Por sua vez, esta resulta numa apropriação desigual dos espaços urbanos pelos grupos sociais e reflete, isto sim, também uma desigualdade de cores. Então temos regiões onde predominam os que se autodeclaram pardos e regiões onde predominam os que se autodeclaram brancos (os dados são do último censo do IBGE). Estas regiões são mutuamente excludentes. Já os que se declaram pretos coexistem com “regiões pardas” ou “brancas”.

RC - Como a arquitetura se insere nesse contexto de desigualdades?

GC - A arquitetura faz parte do contexto social. De modo geral, os arquitetos atuam no caso da habitação, por exemplo, no mercado formal, ou seja, regulado, fiscalizado pelo poder público, obedecendo a padrões urbanísticos, etc. E suas obras, de modo geral, não vão ser encontradas, por exemplo, no miolo ou no Subúrbio Ferroviário, onde os moradores constroem suas próprias casas.


RC - A arquitetura e a engenharia podem contribuir para uma mudança no cenário da ocupação?

GC - A contribuição da Arquitetura e da Engenharia é limitada, freqüentemente porque arquitetos por vezes desconhecem a população e suas características na formulação de propostas. Mas investimentos públicos nas áreas populares, com projetos de equipamentos públicos e privados de educação, lazer, infra-estrutura, serviços e moradia podem contribuir para tornar a cidade menos desigual.

RC - Ainda do ponto de vista da arquitetura e da engenharia, quais as principais diferenças entre as regiões estudadas?

GC - Deste ponto de vista, pode-se afirmar que as habitações são bastante precárias, os equipamentos urbanos – saúde, educação, cultura, etc – são escassos, a acessibilidade é limitada. De modo geral, a cidade como um todo é carente de espaços públicos e de lazer, parques ou áreas verdes, mas as pessoas que moram e circulam próximo da Orla Atlântica têm acesso à praia, que é um elemento da paisagem natural fundamental em uma cidade como Salvador.


RC - O estudo poderá subsidiar ações públicas focadas na redução das disparidades apontadas?

GC - O estudo mostra como é a geografia social da metrópole e permitiria, se esta fosse a intenção do poder público, ações que buscassem a redução de desigualdades. O que o estudo faz é registrar a localização das carências – de infra-estrutura, de moradia, de renda, de instrução. Em outras palavras, mostramos as diferenças espaciais. Conhecido isto, o planejamento de intervenções pode atuar na diminuição destas carências. Afinal, a maior parte das decisões executivas do poder público, especialmente do poder municipal, tem impacto no território e, é claro, na população que habita este território. A questão chave do urbanismo é intervir para transformar o uso e a apropriação do espaço urbano, e estas intervenções são assimétricas, podendo, no nosso caso, diminuir ou aprofundar as desigualdades expressas no espaço.

RC - Este é um problema típico de Salvador?

GC - Não, infelizmente não é um problema típico de Salvador. Aqui tem características específicas, mas isto se repete nas demais cidades. Dificilmente uma sociedade desigual deixará de ter cidades desiguais – social e geograficamente.

 

 

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