Profissão
Agronomia retoma seu papel social

Profissionais enfrentam desafio de produzir com mais tecnologia sem perder o foco no desenvolvimento sustentável

Por Cleide Nunes

Do plantio à colheita. Da criação de gado à comercialização do produto. Tudo faz parte da rotina daqueles que há mais 200 anos estão direta ou indiretamente ligados ao sustento de milhões de brasileiros: os Engenheiros Agrônomos. Em 12 de outubro, data em que se comemora 73 anos da regulamentação da profissão, a Revista do Crea traz um panorama dos avanços e dos caminhos previstos para a categoria.

Nacionalmente, os engenheiros agrônomos representam mais de 70 mil profissionais. Só na Bahia são 6,5 mil. Estima-se que, anualmente, 250 novos profissionais cheguem ao mercado baiano. E a curva ascendente da categoria mostra ainda que, se antes a agronomia estava restrita à área rural, o cenário mudou. Hoje, esses profissionais são responsáveis por relações bem mais abrangentes: negócios, produção, pesquisa e exportação. São mais de 40 áreas de atuação, que englobam atividades como agricultura, irrigação, pecuária, zootecnia, economia rural, dentre outras.

O que poucos sabem é que essas especificações tiveram origem a partir da década de 50, quando o mundo passou a conhecer o que propunha a Revolução Verde. O foco era injetar tecnologia básica via fertilizantes, agrotóxicos e sementes melhoradas na agricultura. A partir da década de 70, com a intensificação do uso deste tipo de manuseio técnico, modificou-se, entre outras coisas, o modo de produção do alimento. Com isso, as escolas passaram a formar profissionais nos moldes da agricultura tecnológica. Uma transformação acompanhada por boa parte daqueles que já estavam no mercado de trabalho.

Autor da tese de doutorado pela USP Formação do Engenheiro Agrônomo em Questão: A expectativa de um profissional que atenda as demandas sociais do século XXI, o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), engenheiro agrônomo Valdo José Cavallet, aponta que a busca por um desenvolvimento sustentável na sociedade contemporânea ampliou significativamente o papel do Engenheiro Agrônomo e, ao mesmo tempo, chama a atenção para o fato de que esta evolução tecnológica na agronomia atendeu a interesses específicos. Em sua análise, Cavallet afirma que esta ênfase na tecnologia como centro da atividade profissional (com todas as conseqüências posteriores, como a ampliação do uso de agrotóxico etc.) acabou se restringindo a interesses de segmentos dominantes, como as grandes empresas do agronegócio. Por outro lado, o pesquisador mostra que há hoje uma retomada do papel social deste profissional. “A agronomia ficou mais direcionada a viabilizar pacotes tecnológicos num atendimento direto aos interesses transnacionais. A própria pressão, oriunda de outras demandas sociais, ressignificou o papel da profissão, fazendo com que objetivos sociais muito mais amplos, de interesse de toda a sociedade, voltassem a ser o centro da profissão”.

Ainda é cedo para prever com precisão o futuro da agronomia nas próximas décadas. Mas, certamente, não há perspectivas de enxugamento do mercado profissional. A crescente exigência de mão-de-obra qualificada no campo tem levado milhares de estudantes oriundos dos grandes centros urbanos a optarem pelo curso. Dos 30 alunos da turma em que leciona o professor da Universidade Federal do Recôncavo Clóvis Pereira Peixoto, 50% são da capital. "Até brinco com eles perguntando se o curso foi a segunda opção escolhida na inscrição do vestibular". Para o professor, diversos fatores contribuem para a escolha. "Além dos alunos poderem se manter com menos custo no interior, a Agronomia é uma área eclética. Assim, soma-se a evolução da tecnologia com produção de alimento em alta, daí o grande interesse dos estudantes".

Formado há 50 anos pela Escola de Agronomia da Ufba, o professor e engenheiro agrônomo Sylvio de Carvalho Marback acompanhou de perto a evolução da profissão. Para ele, o sistema de ensino sempre teve problemas no que se refere à pesquisa de campo. “Na minha época, já havia uma certa dificuldade com as disciplinas práticas. A área da faculdade era grande, mas faltava material de trabalho”, relembra. Hoje, o engenheiro explica que a profissão trouxe muitos avanços, mas ainda peca quando se trata de mercado de trabalho, principalmente na Bahia. "Mesmo com o passar do tempo, não evoluímos muito se compararmos os investimentos na área feitos no Sudeste e Sul do País. Além do mercado ser restrito na Bahia, ainda há a desvalorização do profissional e a falta de apoio e remuneração dos professores".

Estudante do 7º semestre de agronomia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Márcia Ribeiro comunga com o engenheiro formado há 50 anos a percepção de que ainda há muitas dificuldades a serem enfrentadas no campo da formação profissional, principalmente no que se refere à oferta de estágio. Para ela, a falta de pesquisa de campo impede que o estudante entre no mercado de trabalho munido da experiência necessária. "É difícil ter uma visão ampla do mercado no campo de agronomia. Por isso, já penso em fazer uma especialização. Caso não seja bem recebida no mercado de trabalho, vou partir para a área de pesquisa ou educação".

Na avaliação da coordenadora da Câmara Especializada de Agronomia do Crea-BA, engenheira agrônoma Giçara Maria Cadidé Duarte, a inquietação da estudante é compreensível. Segundo a coordenadora, é fundamental que, antes de chegar ao mercado de trabalho, o estudante tenha uma idéia da realidade que vai encontrar em vários níveis – social, político e econômico. Giçara defende a aproximação do ensino acadêmico da comunidade. “Os profissionais que saem da universidade são prejudicados na medida em que, ao prestarem um concurso, por exemplo, a primeira exigência é que possuam mestrado ou doutorado. A valorização do profissional acaba se restringindo aos títulos e não às experiências”, lamenta.

Chefe geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, em Cruz das Almas, José Carlos Nascimento defende que o estágio é fundamental. "Com relação a isso, podemos dizer que houve um avanço. Temos na Embrapa cerca de 150 estagiários bolsistas. Isso significa que podemos dar uma contribuição importante na formação desses jovens, sobretudo na prática, com o uso de ferramentas importantes da Agronomia", exemplifica o Engenheiro Agrônomo. Apesar dos avanços, Nascimento admite que as oportunidades não são proporcionais à demanda. Ele reconhece, no entanto, que apenas um órgão da Embrapa ligado à Mandioca e Fruticultura atende a Universidade Federal do Recôncavo. "Não podemos agir sozinhos. É preciso que as associações reivindiquem melhorias e democratizem o acesso dos estudantes ao estágio”.

A atividade agronômica está diretamente ligada ao manuseio e à intervenção do homem no mundo, afetando ecossistemas ou mesmo causando desequilíbrios ecológicos. Além da produção sustentável de alimento, o debate sobre o papel do agrônomo e sua relação com o meio ambiente tem se tornado central neste início de século. O avanço das novas fronteiras agrícolas tem ameaçado alguns patrimônios naturais brasileiros. O cerrado, considerado o segundo maior bioma do País, atrás apenas da Floresta Amazônica, é um bom exemplo disso. Na Bahia, este tipo de ecossistema é responsável por 26% das águas do Rio São Francisco. Um dos problemas mais graves enfrentados pelo cerrado é o predomínio da agricultura industrial em conseqüência da biotecnologia. Hoje existem na região diversos plantios de transgênicos, o que dificulta a produção do pequeno agricultor. “O cerrado é uma preocupação constante e urgente. Com a degradação ambiental, grandes proprietários, principalmente das regiões Sul e Sudeste, se apossaram das terras. Eles plantam vasta área de monocultura, espremendo e impedindo a produção dos pequenos produtores rurais”, alerta a presidente da Associação de Engenheiros Agrônomos da Bahia, Lucedalva Xavier.

Analista técnica do Crea-BA, Lucedalva chama a atenção para o fato de que o o cerrado tende a desaparecer se não houver ações efetivas capazes de impedir o atual processo de devastação. O desgaste do solo, a falta de acompanhamento técnico adequado, além da degradação dos rios, constituem problemas graves. Como forma de reduzir esses impactos, Lucedalva aponta algumas alternativas, incluindo para outros biomas como a caatinga. “O que a gente queria era que os biomas tivessem uma moratória de projetos de irrigação para esses grandes empreendimentos na área da agricultura”, explica.

Investimentos em tecnologia adaptada, como já ocorre na China e no Japão, de acordo com Lucedalva, precisam servir de exemplo. “No Brasil, não há incentivo por parte do governo. Não há incentivo para pesquisas no cerrado. Os recursos do País são destinados à exportação, e o pequeno produtor não tem dinheiro para exportar”, critica. Lucedalva destaca ainda a atuação dos Engenheiros Agrônomos fundamental na reversão desse contexto.

Os problemas e as polêmicas geradas a partir da Revolução Verde, a mecanização da lavoura e o uso indiscriminado de agrotóxico têm levado muitos profissionais da agronomia a defender um outro modelo de produção de alimento. É o que vem sendo chamado de “agroecologia” ou “agricultura orgânica”.

O Brasil é hoje o décimo país em consumo e produção de produtos orgânicos. Mas ensinar o pequeno produtor a cuidar de sua plantação é tentar mudar, acima de tudo, o currículo do profissional de Agronomia, visando também ao lado socioambiental da profissão. Como analisa o diretor da Embrapa, José Carlos Nascimento, as escolas de agronomia cresceram muito nas últimas décadas, mas o produtor típico não seguiu a mesma trajetória. “O fato concreto é que o nosso produtor ainda não evoluiu e poucos contratam profissionais. Os órgãos de assistência técnica não fazem concursos – os orçamentos são escassos. Hoje se trabalha de acordo com a demanda”, avalia.

Nesse aspecto, o engenheiro Sylvio Marback cita o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Rural (Pronaf), que tem fortalecido a agricultura familiar como segmento gerador de postos de trabalho e renda. Mas isto estaria acontecendo principalmente no Sul e Sudeste, ressalta o engenheiro. “Na Bahia esse processo está estagnado. A pequena propriedade rural está sem assistência. Se ela não tender para uma empresa, ela não vai evoluir. As grandes fazendas têm a necessidade de ter um agrônomo e é preciso educar o pequeno produtor para isso”, aponta.

O primeiro curso superior na área de ciências agrárias, no Brasil, foi criado na Bahia em 1877, na Escola Superior de Agricultura de São Bento das Lages, em que estado?. Com dificuldades de captar recursos, a instituição foi transferida várias vezes, até que, em 1943, foi instalada em Cruz das Almas-BA com o nome de Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia, hoje denominada de Centro de Ciências Agrárias da recém-criada Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Entidades falam da formação


“Na Agronomia, precisamos adequar a grade curricular às realidades social, ambiental e econômica do País. Os aspectos ambientais, por exemplo, estão relegados a segundo plano, o que não é mais possível dado o avançado grau de degradação imposto à natureza.”
José Anchieta M. Cavalcanti – Soc. dos Eng. Agrôn. do Cacau-SEAC

“Temos que regionalizar as universidades agrícolas. Priorizar o conhecimento da região e evitar a proliferação de unidades de ensino privado, que não dispõem de estrutura compatível com o crescimento profissional. O Crea é um grande aliado nessa busca incansável pela valorização profissional.”
Joedilson Freitas - pres. da Ass. dos Eng. Agro. de Feira de Santana - AEAFS

“Deve haver uma integração maior entre a universidade e as empresas como um meio de incentivar o estágio supervisionado. Este processo é fundamental para que o profissional consiga uma boa colocação no mercado. Além disso, as universidades devem promover um contato maior entre alunos e produtores da região, através da elaboração e execução de projetos, para que os alunos
conheçam os problemas da sua região”.
Ilana Sales – Ass. dos Eng. Agron. do Sudoeste da Bahia

 

Entrevista
com Maria Higina, Engenheira Agrônoma e Conselheira Federal

Ex-presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos da Bahia (AEABA), Maria Higina do Nascimento deixa, em dezembro, a cadeira de Conselheira Federal. São mais de 26 anos dedicados à Agronomia. Funcionária da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), onde atua na Central de Laboratórios Agropecuários, a Conselheira faz um balanço de sua trajetória.

Revista Crea - O que a senhora destacaria de sua história como Conselheira?

Maria Higina – Busquei representar bem a categoria e o estado da Bahia. Sempre me preocupei com as questões ligadas à profissão, sobretudo com a formação profissional, para que possamos prestar um serviço de qualidade à sociedade. Na Comissão de Educação, um dos focos do meu trabalho foi a minha preocupação com a proliferação dos cursos tecnológicos. Também colaborei para que todos os estados tivessem representantes junto ao Confea por meio da aprovação pelo Plenário de projetos de lei que tratam da universalização da representação dos estados no Confea e a criminalização do exercício ilegal da profissão.

RC - A senhora faz críticas contundentes à aprovação da Resolução 1010. Explique.

MH - A Resolução 1010 foi aprovada sem o devido aprofundamento. No meu entendimento, não se pode aprovar uma legislação baseada na flexibilização das profissões para atender à nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) que incentiva o sombreamento entre as profissões. Com isso estão sendo criadas profissões de toda ordem sem uma base sólida. São profissões inconsistentes. E isso é muito preocupante.
RC - E como está a questão da Engenharia Tronco?
MH - É preciso discutir a Engenharia Tronco, sobretudo na Agronomia. Recentemente, aventou-se a possibilidade de criação do curso de Engenharia de Horticultura, curso esse totalmente deformado porque está dentro da agronomia. Se lutássemos pela Engenharia Tronco, evitaríamos essas especializações dentro da graduação. O mundo inteiro discute a volta da formação da Engenharia Integral. Antes de tudo, precisamos estudar e ter a base da Agronomia.

RC - Qual seria o papel social do agrônomo?

MH - Resgatar o equilíbrio perdido. Reavaliar o ensino e o modelo agrícola. A tecnologia serve ao capital, e o capital está preocupado com o produto de exportação. Não existe uma tecnologia voltada para a pequena agricultura. Não existe tecnologia voltada para os produtos de consumo interno. A preocupação é com a produção de frutas, é com a soja. É preciso olhar para as pessoas do campo e educá-las para cultivar seu próprio alimento.

RC - Fórum da Mulher. Quais são os projetos fundamentais?

MH - A proposta é fazer um trabalho junto às mulheres da periferia e da área rural. A mulher como chefe de família e que contribui com a renda familiar, no sentido de implementar uma educação alimentar com a plantação de horta orgânica, conservação dos alimentos, higiene e farmácia viva, além de promover um plano de urbanização nas favelas. Vamos levar esse projeto para o ECO 2008.

 

 

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