| Entrevista
Reforma
urbana em construção
Com Raquel Rolnik - secretária de Programas Urbanos do Ministério
das Cidades
| Distorções
históricas das cidades brasileiras como a falta de
planejamento e o déficit habitacional são algumas
das preocupações da secretária de Programas
Urbanos do Ministério das Cidades, a arquiteta e urbanista
Raquel Rolnik. Ela esteve em Salvador para participar de um
ato público pela reforma urbana. Professora universitária,
com mestrado em arquitetura pela Universidade de São
Paulo (USP) e doutorado pela Universidade de Nova Iorque,
Rolnik é hoje uma das principais responsáveis
pela política de implantação dos Planos
Diretores nos municípios brasileiros. Nesta entrevista,
a secretária fala sobre os entraves que caracterizam
o ordenamento urbano no Brasil e reforça a relevância
da participação do cidadão na gestão
das cidades. Outro fator fundamental, segundo ela, é
o papel dos profissionais da área tecnológica
na construção de políticas focadas na
engenharia e na arquitetura públicas, apontadas como
instrumento imprescindíveis ao fortalecimento de reforma
urbana democrática.
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Revista
Crea
- Qual o maior problema de planejamento urbano, hoje, nas cidades
brasileiras?
Raquel
Ronik - Por incrível
que pareça, é a questão da moradia, na medida
em que esta acaba empatando todos os outros. A maior parte da população
brasileira urbana não tem acesso à moradia digna e
acaba ocupando, improvisando espaços. Ao fazer isso, nós
acabamos tendo cidades espalhadas na direção das periferias;
e, ao mesmo tempo, muitas ocupações acabam sendo em
áreas de proteção ambiental. A gente começa
a ter problemas decorrentes disso. Problemas ambientais, de transporte
(para trazer as pessoas da extrema periferia para os lugares dos
empregos); de saneamento ambiental (a maioria das cidades não
tem saneamento ambiental completo (água, luz, esgoto, lixo,
drenagem). Esse é o grande desafio hoje.
RC - A responsabilidade por essas questões também
estaria ligada ao planejamento e melhor gestão das cidades
?
RR - Nas nossas cidades não existe a prática
de planejamento. A maioria dos planos que fizeram se refere a um
pedaço muito pequeno dessas cidades. Um movimento muito importante
é o de planejamento. Isso tem que envolver os gestores, a
prefeitura e a população. Planejamento é a
definição de qual é a melhor forma de como
ocupar cada pedaço da cidade. Ele tem que ser um pacto da
cidade com o seu cidadão.
RC - A senhora veio a Salvador para
participar de um ato pela reforma urbana. Quais aspectos destacaria
como prioritários?
RR - A agenda da Reforma Urbana tem alguns eixos.
O principal deles é o direito à cidade (a idéia
de que todo morador da cidade tem direito a uma moradia digna),
a um saneamento ambiental, a um transporte coletivo de qualidade
e a usufruir das qualidades que a cidade tem. E para isso o outro
grande eixo é a gestão democrática dessa cidade,
que é quando o cidadão tem o direito de opinar e definir
os destinos de sua cidade.
RC - Dos projetos da Secretaria de
Programas Urbanos do Ministério das Cidades, hoje, quais
tiveram maiores êxitos?
RR - É uma secretaria nova que foi montada
num ministério novo, o das Cidades. Acho que os dois grandes
projetos foram a implementação dos Planos Diretores
das Cidades em todo o País, a partir da Campanha Nacional
dos Planos Diretores Participativos, que foi dirigida aos 1683 municípios
que precisam aprovar, de acordo com a lei, um plano diretor até
outubro deste ano. Hoje nós temos mais de 1500 cidades fazendo
seus planos. Temos também o Programa Nacional de Apoio à
Regularização Fundiária, que introduziu a pauta
do direito a regularização fundiária completa
total para os assentamentos irregulares, ilegal, onde existe uma
população de baixa renda e que, já dentro do
nosso ordenamento jurídico, adquiriram o direito de ver regularizada
a sua situação.
RC - Sobre os recursos direcionados à questão da habitação,
há algum fundo especial que possa repercutir ou minimizar
estes problemas?
RR - Temos hoje o Fundo Nacional de Habitação do Interesse
Social, de Habitação Popular. Ele foi um projeto de
Lei de iniciativa popular, que tramitou durante 16 anos no Congresso
Nacional e finalmente foi aprovado em 2004, sancionado pelo presidente
Lula. A partir desse ano, tem 1 bilhão de reais desse fundo
destinado para a moradia popular.
RC - Qual seria a prioridade desse dinheiro?
RR - Este ano, a prioridade foi a urbanização
de favelas e, dentro das favelas, as palafitas. Para 2007, o Conselho
Nacional de Habitação de Interesse Social (gestor
do Fundo), está definindo as prioridades.
RC - Do ponto de vista técnico,
qual seria o papel dos profissionais da área tecnológica
nesse processo?
RR - A participação da área
tecnológica, engenheiros, arquitetos e todos os profissionais
dessa rede é fundamental. Eu diria que, se não fosse
a atuação desses profissionais na campanha do Plano
Diretor Participativo, na construção da Conferência
e no Conselho Nacional das Cidades, hoje a gente não teria
essas conquistas. Ao mesmo tempo, quando pensamos no cotidiano dessas
cidades, há um impasse: a maior parte da população
não tem acesso ao trabalho profissional dos engenheiros e
arquitetos. Por isso uma das reivindicações fundamentais
é a assistência técnica gratuita de engenheiros
e arquitetos para a população.
RC - Está em processo de revisão a lei que
trata justamente da engenharia e arquitetura públicas, apoiada
pelo Sistema Confea/Crea. Como a senhora vê esse tipo de iniciativa?
RR - A engenharia, assim como a arquitetura pública,
são pautas e reivindicações legítimas
da área tecnológica. É uma iniciativa fundamental
para conseguirmos ampliar o direito a moradia digna e a transformação
de uma cidade decente para todos, fazendo com que esses profissionais
possam colaborar mais ainda com o planejamento e a melhoria da vida
nas cidades brasileiras.
RC - De que forma a Secretaria tem atuado no processo de
finalização dos Planos Diretores dos municípios
baianos?
RR - Na Bahia, temos 164 municípios que
precisam concluir seus planos diretores até outubro de 2006.
No levantamento que fizemos em maio, temos 81 em andamento (metade),
34 concluídos (21%) e 49 (30%) que, em maio, não haviam
iniciado ainda. Espero que esse quadro agora já tenha se
alterado, parte dos 49 tenha começado e os que estavam em
andamento tenham sido concluídos também.
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