Nanotecnologia
Revolução microscópica

Falta de investimentos em pesquisas compromete avanços nessa área

Por Sivaldo Pereira

Uma parte significativa do desenvolvimento tecnológico vem sendo afetada por uma revolução microscópica. A nanotecnologia ou a nanociência (aplicações tecnológicas em escala nanométrica) repercute em campos profissionais relativamente distintos como engenharia, medicina, química e outros segmentos.

Apesar do interesse de governos e investidores nos países desenvolvidos, no Brasil se enfrentam problemas e barreiras para se aprofundarem pesquisas, o que pode deixar o País na dependência tecnológica externa em um futuro não muito distante. Na Bahia, os estudos já começaram, mas faltam verbas e equipamentos.

Segundo dados do relatório Nanotecnologia Investimentos, Resultados e Demandas, do Ministério da Ciência e Tecnologia, publicado em junho de 2006, uma das primeiras iniciativas do governo brasileiro no setor foi em 1987, com o investimento de aproximadamente R$ 21 milhões (cerca de 10 milhões de dólares) em equipamentos na área de semicondutores (setor que envolve a produção de microchips). Em 2005, foi criado o Programa Nacional de Nanotecnologia. De lá para cá, até o 1º semestre deste ano, foram aplicados, segundo o documento, cerca de R$ 70 milhões.

Apesar das cifras parecerem significativas, pesquisadores avaliam que o investimento feito no País está muito aquém do necessário. Segundo o coordenador da Rede Multiinstitucional em Materiais Avançados e Nanotecnologia (Reman) e professor do Instituto de Física da Ufba Antônio Ferreira da Silva, a pesquisa nessa área requer montantes sólidos. “O nosso maior problema é que a iniciativa privada não atentou para a importância desse tipo de tecnologia. Os investimentos vêm do governo, que, por sua vez, não tem conseguido investir o necessário para avançarmos. Em outros países, tanto a indústria quanto o governo investem pesado”, explica o professor, que tem doutorado em Física pela Universidade de Linköping, na Suécia.

Para se ter uma idéia do volume de recursos que este tipo de desenvolvimento tecnológico requer e da sua importância estratégica, foram investidos no mundo aproximadamente o equivalente a R$ 16 bilhões (cerca de 8 bilhões de dólares) em 2004. Neste mesmo ano, só os Estados Unidos, país que mais investe no setor, gastou algo em torno dos R$ 6 bilhões (mais de U$ 3 bi) com pesquisas na área, somando recursos governamentais e privados, conforme dados de relatórios internacionais como o IC Report ou estudos da Lux Research.

Nanotecnologia e engenharia

A nanotecnologia é considerada um campo multidisciplinar que envolve diversas áreas de conhecimento que vão desde a química, a produção de chips e circuitos integrados, até a medicina ou desenvolvimento de materiais especiais a partir da sua manipulação em escala nanométrica. Estes novos materiais já estão presentes no nosso cotidiano, em computadores, celulares, discos lasers, aparelhos médicos, biomateriais, dispositivos sensores, anúncios luminosos, células solares, etc.

No caso específico dos profissionais da área tecnológica, este tipo de inovação já está repercutindo diretamente nas diversas especificidades de atuação, seja na engenharia civil, com a invenção de novos materiais que irão entrar no mercado nos próximos anos, seja na engenharia química, com a manipulação em microescala de novas combinações moleculares para produtos como cremes, graxas e outras substâncias, ou na mecatrônica, computação e eletricidade, com o desenvolvimento de microcircuitos cada vez menores e mais eficientes.

Embora seja uma área em crescimento acelerado, a nanociência dá seus primeiros passos no Brasil, principalmente em centros de pesquisa localizados no eixo Sul/Sudeste. “No Norte/Nordeste, temos muito pouco, eu diria até que quase nada, em termos de desenvolvimento efetivo de pesquisa nesta área. Nós, aqui na Bahia, estamos começando, mas esbarramos na falta de investimentos em recursos humanos e laboratórios", lamenta Ferreira.

Conforme analisa a professora e doutora do Instituto de Química da Ufba, engenheira química Maria do Carmo Rangel, as maiores dificuldades encontradas pelos pesquisadores no Brasil, voltados para o desenvolvimento da nanotecnologia, se referem à deficiência de equipamentos e mão-de-obra especializada. “A infra-estrutura envolve elevado custo, que exige especialistas de alto nível. A matéria é interdisciplinar e com conceitos ainda não completamente estabelecidos, demandando por profissionais especialistas de diversas áreas, que possam interagir de forma eficiente e complementar. Dessa forma, apenas algumas regiões do País desenvolvem nanotecnologia a contento”, avalia.
Principalmente devido a essas dificuldades que caracterizam o segmento de pesquisa, a Bahia ainda possui uma participação tênue nesta área. “Há ainda a carência de apoio institucional às atividades em desenvolvimento, dificultando o crescimento dos grupos de pesquisa envolvidos. Em termos gerais, falta uma ação organizada e direcionada para o desenvolvimento dessa área no Estado da Bahia”, conclui Maria do Carmo.

 


1 nanômetro (nm) equivale a 1,0×10-9 metros ou 1 milionésimo de milímetro

A palavra nanotecnologia foi utilizada pela primeira vez na década de 70, pelo cientista japonês Norio Taniguchi, para descrever as tecnologias que permitam a construção de materiais a uma escala de 1 nanômetro.

 

PÁGINA INICIAL DO SITE
PÁGINA INICIAL DESTA EDIÇÃO
TODAS AS EDIÇÕES