Por Cleide Nunes
Dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) levantados no último Fórum Brafitec, em maio, revelaram que o Brasil precisa formar mais de quatro mil doutores até 2010 para garantir o desenvolvimento industrial e empresarial. Atualmente, de acordo com o MEC, o número de doutores titulados mal consegue suprir o índice de aposentadoria nas universidades.
O resultado desse diagnóstico reflete justamente o retrocesso científico do setor, cuja área tecnológica responde por 70% do PIB. Conforme explica o presidente do Crea-BA, engenheiro Jonas Dantas, caso se confirme no País o crescimento acima de 2,5% e 3%, dificilmente será possível fazer frente às demandas ligadas não só às engenharias, mas a todas as áreas com maior contração e volume de investimentos. “O dado da Capes reflete a insuficiência dos recursos que o Brasil destina à educação, sobretudo a partir do ensino fundamental. Para aumentarmos o número de doutores e mestres, é preciso termos uma política de concessão de bolsas de estudo. Ou o País fortalece sua política de educação ou teremos um descompasso tecnológico sem precedentes. O ideal seria a democratização de um ensino de qualidade, o que, conseqüentemente, se reverteria num leque maior de oportunidades para a população em geral e não apenas para os mais favorecidos”, explicou o presidente do Crea-BA.
Em países como China, Japão e EUA, a engenharia e as pesquisas científica e tecnológica andam de mãos dadas. Engenheiros estão diretamente ligados ao desenvolvimento de processos e produtos em núcleos de inovação instalados dentro das indústrias. No Brasil, esta demanda parte das áreas de energia, petróleo e gás, minas e metalurgia, automação industrial, bens de capital, além de outras. Porém, ainda é preciso muito investimento para aliar os profissionais às empresas junto ao setor acadêmico.
Na avaliação da professora Cristina Quintella, coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da Ufba, não basta criar a demanda por profissionais. É preciso tirar a tecnologia do laboratório para chegar ao consumidor. “O baixo número de doutores também está relacionado com a pequena participação de empresas nacionais no desenvolvimento tecnológico, com a ausência de pesquisadores contratados com mestrado e doutorado nas organizações, além da falta de uma cultura de registro da propriedade intelectual como patentes, marcas, softwares e desenho industrial”, revela.
A baixa remuneração oferecida para pesquisadores trava o processo de integração entre o desenvolvimento tecnológico e científico. Enquanto um engenheiro entra no mercado com um salário médio de R$ 3 mil, apenas R$ 870 e R$ 1.200 reais são concedidos para a bolsa de mestrado e doutorado, respectivamente.
O analista técnico do Crea-BA, Pedro Rios, mestre em engenharia mecânica na área de biodiesel pela PUC Rio, não vê perspectiva de incentivo para seguir a carreira acadêmica. “Tenho vontade de iniciar o doutorado, mas infelizmente a bolsa não supre as necessidades mínimas de uma família. Ou seja, a carência do País em investimento científico interfere diretamente na minha profissão”.
Outro entrave é o processo de formação dos doutores é a qualidade do ensino no Brasil. Pesquisas já apontam que a nação ocupa o 86º lugar no ranking do Pnud [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento] e 42º no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos).
A classificação reflete em dados recentes divulgados pelo governo federal. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), indicador criado para orientar o direcionamento de verbas da educação, constatou que a atual situação do ensino fundamental no País é mais que dramática. Numa escala que vai de zero a 10, mais de 94% das escolas municipais avaliadas, cerca de sete mil, tiveram um Ideb inferior a 5. Salvador teve o pior desempenho, com Ideb de 2,8 (na avaliação de 1ª à 4ª série). A meta do MEC é que, até 2021, os índices atinjam uma melhora de 3,8% para 6%.
Na avaliação do diretor da Escola Politécnica da Ufba, professor Luís Edmundo Prado Campos, os dados apresentados pelo Ideb podem ser revertidos na medida em que o aluno aprende, desde o ensino fundamental, a importância das profissões. No caso da Engenharia, se o aluno é incentivado a aprender matemática, física e química, o interesse dele pela área tecnológica vai levá-lo ao campo da pesquisa científica.
Uma das esperanças para a educação apontadas pelo diretor está na Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Com o Programa de Modernização e Valorização das Engenharias (Promove), a idéia é promover a integração entre a Engenharia e as escolas de ensino médio e fundamental, com o objetivo de despertar o interesse pela profissão.
“Temos observado, através desse programa, a escolha pela Engenharia de alunos da 3ª série do ensino médio. Acontece que, infelizmente, algumas universidades se utilizam deste instrumento para fazer propaganda das mesmas, ao invés de motivarem a profissão”.
Destaques
Site: www.capes.gov.br