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crise aérea

Investimento nas alturas

Revitalização dos terminais de transporte aéreo da Bahia deve consumir R$ 265 milhões. Parte das obras, no entanto, só terá início em 2008

Por Janes Fernandes


Quase três meses após o ápice da crise aérea brasileira, com a morte de 199 pessoas no acidente com o vôo 3054 da TAM em Congonhas (SP), a Bahia dá os primeiros passos para revitalizar sua rede aeroportuária.

O Aeroporto Jorge Amado (em Ilhéus), apontado por pilotos como o segundo mais perigoso do País, terá obras iniciadas somente em 2008, com previsão de conclusão em cinco anos. De acordo com os planos apresentados pela Secretaria de Infra-estrutura do Estado (Seinfra), as intervenções se estendem para outras nove unidades, incluindo o aeroporto de Salvador, que recentemente teve sua pista secundária
interditada.

Na avaliação do fundador da disciplina "aeroportos" no curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Ufba, o professor aposentado Adinoel Motta Maia concorda com os pilotos ouvidos em pesquisa informal da Rede Globo. Ele aponta que a pequena extensão da pista (atualmente com 1.467 metros liberados para operação) é a maior deficiência do local, fazendo com que as aeronaves de maior porte tenham de operar com restrição de peso, com redução de pelo menos 35% da carga. O que impacta na quantidade de escalaspara abastecimento e na quantidade de passageiros embarcados.

O professor, no entanto, ressalta que não sabe se há fiscalização quanto ao cumprimento dessas limitações. Ele lembra que falhas no monitoramento muitas vezes
são evidenciadas apenas após a ocorrência de um acidente grave, o que nunca ocorreu no aeródromo desta cidade. Questionado sobre o título atribuído ao Jorge Amado, um dos três aeroportos baianos administrados pela Infraero, o superintendente regional da empresa, Elvino Ney Taques, limitou-se a afirmar que "as operações de pouso e decolagem de aeronaves atendem aos parâmetros de segurança estabelecidos".

A própria Infraero destaca as mudanças no entorno da unidade. Construído há 70 anos em área com poucas residências, hoje o aeródromo encontra-se completamente
envolvido pela malha urbana. Porém, na opinião do engenheiro civil Wellington Figueiredo – atual titular da disciplina criada por Maia, rebatizada de "transporte aéreo" –, essa questão não chega a interferir nas condições de uso, pois tais construções não interferem nas rotas de aproximação e de decolagem.

Embora defenda um ordenamento mais eficaz da urbanização em torno dos aeroportos, principalmente dentro do espaço delimitado como zona de proteção da unidade, Maia reconhece que o entrave para expansão do aeroporto de Ilhéus tem outra origem. Originalmente erguido como aeroclube, com pista de no máximo 900 metros, o Jorge Amado está situado entre o mar e o Rio Cachoeira. Assim, a única possibilidade de ampliar a área de pouso e decolagem seria construir uma ponte de alta resistência sobre o rio, exigindo um investimento muito elevado.

Considerando essas condições, Maia concorda que a melhor solução é fazer um aeroporto novo (orçado em R$ 155 milhões). Sem conhecer a área aprovada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para a implantação da unidade, o professor apenas ressalta os critérios fundamentais para uma operação segura. Ele explica que o comprimento da pista, por exemplo, é calculado com base na maior aeronave que irá operar naquele aeródromo. É o fabricante quem indica o "comprimento de operação padrão", que deve ser corrigido para as condições de temperatura, altitude e declividade da área onde a pista será construída.

O secretário de infra-estrutura do Estado, Antônio Carlos Batista Neves, destaca que a Seinfra busca uma empresa interessada em investir no novo aeroporto de Ilhéus e se tornar a concessionária da unidade. Na sua avaliação, o modelo de gestão aplicado em Valença parece viável para esta cidade do sul baiano. Ciente de que a iniciativa privada só investe mediante boas possibilidades de lucro, ele lembra o potencial turístico da região e o fato de Ilhéus ser um pólo de montagem no setor da informática.

Segundo Maia, o cenário encontrado em Ilhéus é bastante comum nas cidades do interior, onde muitos aeródromos foram originados de pequenas pistas de pouso construídas pelos mais diversos motivos. "O erro é que, com o desenvolvimento da cidade, essas áreas improvisadas são apenas ampliadas, sem passar pela correção de suas deficiências e efetivo planejamento". Um exemplo claro está em Eunápolis, onde o ponto depouso foi instalado por conta das obras da BR-101. Com a conclusão da rodovia, a área foi cercada e recebeu uma placa que identifica como aeroporto.

Em Salvador, o recapeamento da pista auxiliar (17/35) do Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães não impediu sua interdição no início de setembro. As obras foram realizadas nos primeiros meses deste ano, mas nada têm a ver com o problema que motivou a decisão do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea). Em
nota de esclarecimento, a Aeronáutica – à qual pertence o Decea – indicou que o problema está relacionado à torre de controle e que medidas corretivas vinham sendo adotadas desde 2001, após reforma do aeródromo.

Foi nesta época que os controladores de vôo começaram a ter dificuldade em avistar a cabeceira da pista por conta do conhecido bambuzal situado a caminho do aeroporto. Como ao longo de seis anos a deficiência não foi solucionada, a suspensão das operações foi solicitada pelo comando do Cindacta 3 (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo) e acatada pela Aeronáutica. De acordo com informações da Infraero, não há previsão para liberação da 17/35 que atendia a táxis aéreos, vôos particulares e aviões de pequeno porte, aeronaves que passarão a operar na pista principal.

A expectativa é que não haja impacto significativo na rotina operacional, pois as pistas não eram usadas simultaneamente. O superintendente da Infraero, Elvino Ney Taques, acredita que o fechamento temporário da 17/35 não irá sequer afetar as obras de manutenção previstas para a pista principal, que não sofre intervenções há sete anos. O recapeamento dos seus 3 mil metros deve ser realizado ainda este ano. Até o fechamento desta edição, o serviço (que inclui intervenções para conservação), orçado em R$ 11,9 milhões, estava em fase de licitação.

Considerado adequado ao fluxo e seguro pelos especialistas Adinoel Motta Maia e Wellington Figueiredo, o aeroporto de Salvador atualmente tem a melhoria de acesso ao local como necessidade mais premente. Por isso, o maior projeto aprovado para a unidade, na verdade, irá acontecer na sua área externa e visa melhorar a circulação dos veículos nos arredores do terminal aeroportuário. Além disso, está quase concluído o plano diretor da unidade, que pode incluir a construção de uma terceira pista, com cerca de 2,5 mil metros.

O sistema viário será composto de quatro viadutos, além de alças de acesso e retornos, e está orçado em R$ 38,5 milhões, somando recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com um investimento do governo do Estado. O convênio entre a Infraero e a Seinfra já foi assinado, e a licitação para a contratação dos serviços acontece ainda este ano. No entanto, as obras devem ser iniciadas apenas em 2008. Os viadutos farão as ligações: Avenida Caribe/Aeroporto, BA-526/Lauro de Freitas e Avenida São Cristóvão/Lauro de Freitas.

 

Mapa de intervenções

Barreiras

A pista de pouso será ampliada de 1,6 mil metros para 2,3 mil metros, com adequação de sua faixa. Será feita a recuperação do balizamento noturno, sistema que serve de guia para operações de pouso e decolagem em horários com pouca luz natural.

Vitória da Conquista

O aprimoramento das condições operacionais não exigirá aumento do comprimento da pista de pouso, atualmente com 1.775 metros, mas sim o reforço de sua estrutura,
serviço que se estende à pista de ligação. O pátio de estacionamento de aeronaves e o terminal de embarque e desembarque de passageiros serão ampliados.

Jequié

A unidade passará por revitalização da pista principal e da pista de ligação; reforma do pátio de estacionamento de aeronaves, com aplicação de lama asfáltica média; execução de drenagem na lateral da pista de pouso e elevação de muro. As intervenções se estenderão à área de escape em torno da pista, serão realizados serviços de drenagem no entorno, com utilização de bueiros ou galerias.

Senhor do Bonfim

Construção de um novo aeroporto com pista de pouso e decolagem com 1,8 mil metros e possibilidade de ampliação para 2,2 mil metros.

Canavieiras

O aeródromo é administrado pela prefeitura municipal e atualmente está interditado, principalmente devido a invasões e interferências de moradores das redondezas. Por
isso, a intervenção consiste na construção do muro no perímetro da área patrimonial de 42,07 hectares. Serão mantidas as mesmas dimensões e estrutura. A pista de pouso e decolagem será mantida com 1.340x30 metros, e o terminal de passageiros de 520 metros quadrados.

Bom Jesus da Lapa

A série de loteamentos situados ao redor deste aeródromo limita as possibilidades de ampliação da pista de pouso (com 1.210 metros), resumindo as ações à revitalização
com aplicação de lama asfáltica. A reforma atingirá também a pista de ligação e o pátio de estacionamento de aeronaves, além de incluir medidas de segurança. Neste ponto, as intervenções mais importantes são a sinalização horizontal e a construção do serviço contra incêndio.

Valença

Único que terá a intervenção custeada pela iniciativa privada. A pista de 1,8 mil metros, incluindo balizamento noturno, atende à demanda turística de Morro de São Paulo, Valença e região, mas não possui tráfego de vôos regulares. A maior pendência é a implantação do NDB (Non Directional Beacon), equipamento conhecido como radiofarol não direcional.

Porto Seguro

Chegou-se a cogitar a construção de um novo aeroporto para a cidade, mas a idéia foi descartada. A unidade atual recebe vôos internacionais e um fluxo anual médio de 790 mil passageiros, sendo o segundo em movimentação na Bahia. As obras previstas para 2008 incluem a recuperação da pista de 3 mil metros e a ampliação do terminal de passageiros.

 

 

Apenas responsáveis técnicos

Preocupado com a dimensão dos efeitos provocados pela crise, o Sistema Confea/Crea realizou, em setembro, no Rio de Janeiro, uma audiência pública com os representantes do setor aéreo brasileiro.

Entre os objetivos estão o plano de intensificação das Fiscalizações Preventivas Integradas (FPIs) nos principais aeroportos do País e a busca de mecanismos que garantam que apenas os responsáveis técnicos, ou seja, profissionais habilitados, possam efetivamente emitir pareceres.

"No auge da crise, vimos inúmeras justificativas para o caos instalado, mas muito poucas vieram daqueles que efetivamente detêm o conhecimento. Não podemos resumir o episódio recente a questões políticas. Existem problemas de natureza técnica e que só
podem ser tratados do ponto de vista técnico", explica o presidente do Crea, Jonas Dantas.

 

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