| Entrevista
Entrevista - Ruy Ohtake – arquiteto e urbanista
As curvas da arquitetura contemporânea
| Em 1960, Ruy Ohtake graduou-se em arquitetura pela FAU-USP. De lá para cá, construiu uma sólida carreira com inúmeros projetos premiados no Brasil e no exterior. Entre os destaques que levam a assinatura do urbanista estão o Parque Ecológico do Tietê, os hotéis Renaissance e Unique, em São Paulo, e a embaixada brasileira em Tóquio. Sobre ele, Oscar Niemeyer declarou: "... Mas se as características do nosso colega revelam tão benéfica influência, seu talento soube contê-la na escala desejada, com esse amor pela curva, pela criatividade, pelo espetáculo arquitetural que o faz um dos mais legítimos representantes da arquitetura brasileira”.
Além de dirigir um dos mais importantes escritórios de arquitetura da capital paulista, o arquiteto lecionou a USP, na Universidade Mackenzie e na FAU-Santos. Ao longo dos mais de 40 anos de carreira, Ohtake imprimiu nos projetos o inequívoco prazer pelas curvas. Para ele, arquitetura só se completa quando construída; ela tem que participar do espaço da cidade. “Se eu me preocupar com a crítica, vou ficar tolhido, fazendo arquitetura de 30 anos atrás”, declarou.
Essa entrevista foi concedida durante o III Fórum Nacional de Arquitetura e Construção, realizado na segunda quinzena de agosto, no Centro de Convenções da Bahia. No evento, Ohtake participou da mesa-redonda Arquitetura Urbana e Institucional. Numa rápida conversa, o urbanista falou sobre os efeitos da globalização na arquitetura e da importância de se manterem aspectos culturais de cada região e da preservação de espaços públicos.
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Revista Crea- BA - Hoje em dia, fala-se muito em cidades globalizadas. O que isso representa para a arquitetura?
Ruy Ohtake - Eu prefiro falar em cidades metrópoles, regiões metropolitanas, porque as regiões metropolitanas tendem a respeitar mais o regionalismo de cada setor, a cultura de cada bairro, o regionalismo de cada cultura. E essa mescla de regionalismo é que faz a cidade ficar mais interessante, ficar mais representativa no país.
RC - E o resultado da globalização?
RO - A globalização tende a massificar as cidades. Não é preciso que uma cidade com cinco, seis, dez milhões de habitantes passe a ser massificada. Ao contrário, as experiências estão mostrando que as cidades não devem ser massificadas, elas devem conservar as suas peculiaridades, as suas singularidades.
RC - Como o senhor vê Salvador nesse contexto?
RO - Eu diria que aqui em Salvador, o Rio Vermelho tem uma característica que deve ser mantida. A Ribeira também tem as suas características. Enfim, cada setor tem uma característica que tem de ser mantida, e eu sou muito a favor disso. O próprio metrô, quando vai ligar uma cidade que começa a crescer muito, ele vai ligar esses bairros e vai facilitar que esses bairros tenham diálogos, convivências interessantes entre as várias culturas que formam um cidade. A globalização iria fazer com que se perdesse um pouco daquilo que a cidade tem de muito rico, que são as suas singularidades.
RC - A capital baiana vive um momento em que áreas verdes estão sendo “devoradas” em nome da ampliação da cidade. Como o senhor pensa essa questão?
RO - As áreas públicas, que aqui em Salvador são compostas pela orla e as áreas verdes, são preciosidades que devem ser mantidas. Como pode conciliar progresso com essa áreas públicas, é fazer com que o plano diretor trabalhe com todo o cuidado a relação entre as áreas construídas e as áreas públicas. Eu prefiro fazer com que uma área construída tenha uma certa densidade forte, mas não invada a área pública. Prefiro enxergar assim, uma concentração na área construída e uma grande abertura nas áreas verdes. Eu não tenho medo de uma cidade grande, desde que as áreas públicas sejam mantidas, podendo haver concentração maior nas áreas construídas.
RC - Nesse caso, a verticalização é uma alternativa?
RO - Não vejo problema na verticalização na medida que ela leve em conta os graus permitidos.
RC - Qual a sua avaliação sobre a formação dos arquitetos, hoje? Quais os pontos negativos e positivos na atual estrutura da universidade?
RO - Acho que vem melhorando, gostaria que melhorasse de forma mais rápida e mais dirigida às questões sociais das cidades. Eu sei que hoje as universidades se preocupam com estas questões , mas elas são tão graves e tão urgentes que penso que a universidade deveria dedicar um pouco mais de tempo ao assunto. Fala-se muito, até com razão, que a sustentabilidade é uma questão importante, mas a gente não pode esquecer da sustentabilidade social, que não é apenas importante, está aí presente, existente e temos de saber colaborar com isso e fazer com que a cidade seja mais humana e mais justa.
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