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ambiente

Pegando fogo

Pesquisadores analisam os efeitos do aquecimento global na Bahia e acreditam
que a solução passa pela mudança de matriz energética e pela conscientização do setor tecnológico


Por Sivaldo Pereira


Dados do último Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas (ONU) de 2007 são preocupantes: dos 12 anos mais quentes dos últimos 150 anos, 11 estão de 1995 pra cá. O nível médio do oceano subiu cerca de 17 centímetros durante o século XX. O motivo é o crescente volume de gás carbônico na atmosfera, que forma uma camada de poluição que retém a saída de energia dos raios solares que seria dissipada para o espaço, aquecendo oceanos e gerando alterações climáticas e ambientais, similares a uma estufa.

Sobre os efeitos na Bahia e no Nordeste, os meteorologistas Ricardo Rodrigues e Allysson de Matos, da Superintendência de Recursos Hídricos (SRH) do Estado da Bahia, explicam que sempre houve variações climáticas na Terra, antes mesmo da existência de civilização ou do desenvolvimento tecnológico.
São os chamados fenômenos cíclicos, isto é, períodos regulares na linha do tempo caracterizados por alterações no clima que ocorrem dentro de certa previsibilidade,
como é o caso do fenômeno "El Niño". Porém, as pesquisas atuais demonstram que os fenômenos hoje detectados podem não ter origens naturais, já que muitos fogem dos padrões de irregularidades e podem representar mudanças irreversíveis. "Boa parte dessas alterações é de origem antrópica, isto é, devido à ação do homem, sobretudo a partir da revolução industrial seguida do aumento do volume de CO2 na atmosfera". O meteorologista explica que, conciliado a isso, temos ainda outros agravantes como o desmatamento de florestas que agiam como biomas reguladores, retirando gás carbônico e emitindo oxigênio.

Muitas dessas alterações já podem ser sentidas. Em janeiro deste ano, Salvador atingiu recorde nos termômetros: 38 graus – temperatura atípica, fora de ciclos previstos. Para Matos, nem sempre se pode afirmar que este tipo de ocorrência está necessariamente vinculado ao aquecimento global devido à emissão de poluentes pelo
homem, embora os indícios apontem para isso. Antes, é preciso acompanhar o fenômeno com o tempo para averiguar se não é, de fato, um evento cíclico.

Conforme o relatório da ONU, a temperatura média do planeta poderá subir 1 grau nos próximos dez anos. Na Bahia, isto será sentido de diversas formas: partes de áreas costeiras ou insulares poderão enfrentar um avanço significativo do mar, inviabilizando trechos que hoje são habitados. Regiões como o Raso da Catarina e outras partes do semi-árido poderão entrar em processo de desertificação, como explicam Rodrigues e Matos. Boa parte do estado terá temperaturas mais elevadas. Chuvas ficarão mais raras, porém serão mais freqüentes as torrentes, capazes de gerar inundações devido à grande quantidade pluvial concentrada em um mesmo dia.

Para estudiosos e pesquisadores, a minimização do problema passa por diversas ações que vão desde o reflorestamento até mudanças na matriz energética mundial. Como avalia o engenheiro civil José Walter Bautista Vidal, especialista em física pela Universidade de Stanford, uma das soluções passa pela substituição de poluentes como o petróleo para outras fontes mais limpas de energia. "O CO2 é principalmente
causado pela queima de combustíveis fósseis. No caso dos combustíveis vegetais, entretanto, a quantidade de CO2 captada pelas plantas é muito superior à que se forma em sua parte, que é queimada como combustível. Assim, a substituição de combustíveis fósseis por combustíveis de origem vegetal, possíveis em grande escala nas regiões tropicais, é a maneira mais inteligente de reduzir o aquecimento global", afirma. Porém, Bautista chama a atenção para a importância de iniciativas governamentais efetivas que caminhem nesta direção.

Também aqui a área tecnológica parece ter um papel fundamental. "É grande a responsabilidade histórica da área tecnológica em relação ao problema. A Engenharia age mudando a natureza. Qualquer obra de Engenharia envolve agressão à natureza. Cabe aos projetos procurar soluções que minimizem o problema, mitigando as agressões", alerta o engenheiro civil, sanitarista e eletricista Guilherme Requião Radel, professor emérito da Ufba. Radel acredita que, se o cenário não mudar, poderemos enfrentar sérios problemas de sobrevivência, como condições inóspitas, falta de água e diminuição da área agricultável, e isso deve ser encarado pelos profissionais desde já. "As profissões da área tecnológica precisam ser mais conscientes da necessidade de proteção à natureza, construindo e operando sistemas que a ofendam de maneira minimizada e que os danos advindos possam ser mitigados. Há que se ter uma maior preocupação com as instalações elétricas e sanitárias, visando baixos consumos de água e de energia, e com a necessidade de se criar conforto térmico natural, evitando o condicionamento de ar nas edificações residenciais e industriais", explica o professor Radel.

 

Reação em cadeia

1 Aumento da temperatura

2 Derretimento das calotas polares

3 Aumento do nível dos oceanos

4 Desequilíbrio da cadeia alimentar

 

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