| entrevista
Armando
Branco, arquiteto
PDDU da exclusão
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Formado em arquitetura pela Ufba e com especialização
em transportes e em habitação, Armando Branco
integra a corrente de arquitetos que alavancou a reforma
urbana que culminou com o Estatuto da Cidade. Professor
de urbanismo, ele teve participação ativa
na análise do atual Plano Diretor de Desenvolvimento
Urbano de Salvador (PDDU ). Nesta entrevista, o ex-conselheiro
do Crea-BA e membro do Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas
fala dos vícios contidos no documento aprovado.
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Por Cíntia Ribeiro
Revista
Crea – Quais os aspectos mais impactantes do PDDU?
Armando
Branco – O Plano Diretor padece de seu vício
de origem: a simulação da participação
da sociedade, que é o primeiro impacto negativo na sua elaboração.
O segundo impacto foi o Conselho de Desenvolvimento Urbano –
Condurb não ser ouvido na alteração do zoneamento
e aumento dos parâmetros urbanísticos, que é
o cerne do desenho urbano proposto que conflita com o potencial
da natureza da cidade. A exemplo do observado no Plano-2004, são
duas vertentes de compreensão de seu conteúdo.
Há uma redação de boas intenções
enciclopédicas nas diretrizes, mas sem correspondência
com o inexplicável aumento dos paramentos urbanísticos.
O Plano é técnico-burocrático, ainda de difícil
compreensão.A Cidade não o absorveu por não
ser um produto de seu cotidiano, mas da hegemonia dos segmentos
político-burocráticos da municipalidade (Executivo
e Legislativo), do fundiário e do imobiliário. Basta
ver as edificações nas áreas populares de Salvador,
testemunhas do desespero de sobrevivência da população.
Quanto
aos impactos territoriais, acentua a segregação social
e urbanística, o que é lamentável, e reflete
a incapacidade da municipalidade de lidar com a realidade de uma
outra cidade, além de acreditar nos modelos projetuais de
arquitetura que negam o diálogo espaço privado-espaço
público.
RC – Não há outra saída para
Salvador além da verticalização?
AB
– Os que defendem esta afirmativa desconhecem a legislação
urbanística do município. Há verticalização
na maior porção do território. Os limites da
mesma são estabelecidos com a conjugação de
outros índices urbanísticos, tendo em vista os estudos
de densidade demográfica do Plano-1985 (Plandurb) que traduzia
um nível de conforto urbano aceitável ou, como se
diz hoje, de sustentabilidade. Ao longo do tempo, foram realizadas
alterações episódicas que culminaram com o
golpe de misericórdia decretado pelo PDDU-2008 na orla atlântica
e no bairro do Comércio.
RC
– Quais os impactos do aumento dessa verticalização
na área de frontispício de Salvador?
AB
- Entrar em Salvador pela Baía de
Todos os Santos ou contemplar a cidade da Ponta de Humaitá
são experiências emocionais que poucas cidades podem
oferecer. O potencial de nossa paisagem é que confere a identidade
ímpar desta cidade. A liberação do gabarito
de altura do bairro do Comércio é algo espantoso e
desrespeitoso. Neste episódio, rompese com a [boa] história
e acertos dos que nos precederam buscando uma cidade especial com
a preservação de suas visuais morfológicas.
Estamos vendo a cidade ser saqueada por decreto.
RC
– Está correto estabelecer zonas de conforto de 13m2
apenas para a região da orla? Explique.
AB – Este é um dos itens que caracterizam
a elitização do Plano para determinadas parcelas do
território e acentua a descabida segregação
social e urbanística, contrariando o Estatuto da Cidade.
O aumento da área construída com aplicação
de uma taxa de conforto mais elevada é uma iniciativa que
já vinha ocorrendo nas alterações da legislação
urbanística do município e que foi sistematizada no
Plano anterior. A intenção é assegurar uma
cidade para os que possuem alta capacidade de consumo, onde os demais
não podem ter vez.
RC
– Houve avanço do ponto de vista da mobilidade urbana?
AB
– Do meu ponto de vista, não, frente à
gravidade deste subsistema urbano. Há uma indecisão
em priorizar políticas públicas concentrando os investimentos
para o transporte público e os não motorizados. Há
uma diluição de diretrizes que não se interagem,
como a de vincular a mobilidade com o uso do solo e com o projeto
arquitetônico da edificação para assegurar a
vida nas ruas da cidade e reduzir deslocamentos desnecessários.
A visão rodoviarista é tão acentuada que esqueceram
de incluir a ferrovia e a metrovia como componentes da rede viária.
Há uma contradição em priorizar os pedestres
e, no entanto, as maiores larguras para os passeios ficam nas vias
marginais das arteriais, que são, principalmente, as avenidas
de vale, com maior circulação de veículos e
oferta de estacionamento dos empreendimentos, enquanto os pedestres
– os despossuídos de carros – circulam muito
mais nas vias coletoras, que deveriam ter dimensões iguais
ou superiores àquelas. O desenho universal não se
aplica no item da estrutura viária. Quanto ao transporte
cicloviário, faltou decisão. O verbo usado é
“estimular”, quando deveria ser obrigar a construção
de bicicletários. Não houve convencimento nas proposições
no sentido de revolucionar a mobilidade urbana.
RC
– E a questão da obrigatoriedade do estudo de impacto
de vizinhança?
AB
– Esqueceram de que existem pessoas que são
atingidas pelos empreendimentos e atividades. É necessário
incluir aspectos da preexistência social e suas manifestações,
inclusive de ordem econômica e de defesa do consumidor.
RC
– O que faltou ao PDDU?
AB
– Faltou reconhecer que não se projetou a
cidade para o presente nem para o futuro dentro dos mais recentes
conceitos de integração ambiental, social e urbanística.
Acentua-se a cidade dos que têm poder de consumo elevado e
a da tecnoburocracia do Estado. Depois, é preciso ter atenção
para as Zeis não se transformarem em ambientes guetizados,
acentuando a segregação urbanística. Grande
parte da população mais pobre não incorporou
o PDDU como uma expectativa de melhoria de seu habitat. Há
um outro estatuto de Estado Urbanístico paralelo, com suas
próprias regras sendo praticadas às vistas tolerantes
do Estado, e esta realidade não foi abordada pelo PDDU, que
se conformou na instituição das Zeis. Esperemos que
até o Plano de 2016, livre do “gabarito da orla”,
a cidade enfrente o desafio de alojar cerca de mais meio milhão
de moradores, cuja maioria é de baixa renda.
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