| entrevista
Caiuby
Costa Alves, engenheiro
Tecnologia não se transfere
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Formado em engenharia elétrica pela Universidade
Federal Fluminense e doutor pela Université de Paris
XI, Caiuby Costa Alves é um defensor da engenharia
plena. Nesta entrevista, o atual conselheiro do Crea-BA
e professor da Escola Politécnica da Ufba fala do
mercado para tecnólogos e reafirma a urgência
de investimentos em educação e tecnologia.
O engenheiro critica a evasão de profissionais para
outros países, fator que tem prejudicado o desenvolvimento
brasileiro.
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Por Cleide Nunes
Revista
Crea - Editais de concursos públicos resistem à contratação
de tecnólogos. Por quê?
Caiuby
Alves – Os
editais de concurso público não só tem resistido
à contratação de tecnólogos, mas também
a de engenheiros, técnicos e demais profissões da
área tecnológica. Isso ocorre porque as políticas
públicas adotadas pelo estado brasileiro, há longo
tempo, não leva em consideração a necessidade
de se ter um projeto estratégico de desenvolvimento. Os quadros
de níveis universitários para planejamento e projeto
na área tecnológica e de nível universitário
e técnico para acompanhamento e fiscalização
de licitações e obras são insuficientes. Caiu
no esquecimento a máxima “quem projeta não constrói,
quem constrói não fiscaliza”. Urge a reestruturação
das carreiras tecnológicas, no aparelho de estado e a abertura
de concursos, respeitando inclusive os respectivos pisos salariais.
(Ex Lei 4960-A) e o exercício profissional (Lei 5194).
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RC - Segundo a Secretaria de Educação Profissional
e Tecnológica (SETEC-MEC) do MEC, existem mais de quatro
mil cursos tecnológicos de curta duração. Como
o senhor analisa esse número?
CA - Lembremo-nos que temos uma população
de 184 milhões de habitantes - um curso por 46.000 habitantes.
O problema está em que os cursos não guardam correlação
entre as diversas áreas dos conhecimentos tecnológicos
tronco. São, em sua grande maioria, concebidos para uma solicitação
pontual do mercado, formando profissionais descartáveis e
analfabetos tecnológicos. (expressão cunhada pelo
professor engenheiro Waldemir Pirró).
RC
- O MEC é parceiro do Sistema Confea/Crea no reconhecimento
de cursos superiores. Qual a importância desse acordo?
CA
- A importância reside na possibilidade de interação
entre o Conselho, enquanto órgão regulador das profissões
tecnológicas, e o MEC - órgão regulador do
sistema educacional. Esse pode vir a ser, em tese, um passo importante.
Deve-se ter, entretanto, cuidado com o unitarismo do MEC e do Confea
que, muitas vezes, ao olharem a realidade nacional de Brasília
confundem imagens com realidades, o que poderá levar ao aumento
das distorções existentes.
RC
- De que outra forma o Sistema Confea/Crea pode intensificar sua
relação com o Ministério da Educação?
CA - Criando mecanismos para maior interação
entre as instituições de ensino – estudantes/docentes
através do Sistema Confea/Crea proporcionando encontros,
seminários, debates das instituições de ensino
com os diferentes profissionais que exercem suas respectivas profissões
na área tecnológica fora do mundo acadêmico.
Isso daria ao mundo acadêmico um choque da realidade em que
o profissional labuta e ao profissional um conhecimento atualizado
da realidade acadêmica.
RC
- Como defensor da engenharia tronco, o Senhor acredita que esse
modelo tem sido discutido com profundidade?
CA
- Embora o tema tenha sido discutido ao longo dos últimos
dez anos, há ainda muito a ser feito. Nesse sentido, a proposta
apresentada pelo Crea-BA é uma base interessante para o aprofundamento
do tema.
RC
- De que maneira incentivar a formação de novos engenheiros?
CA - Através de políticas públicas
que contemplem, realmente e de modo objetivo, o desenvolvimento
sustentado, as inovações, o empreendedorismo, assegurando
aos jovens uma remuneração digna. Isso é possível
pelo estabelecimento de políticas como as que levaram a existência
da Petrobras, Embraer, Embrapa, Fiocruz e de programas como o Proalcool.
É preciso se ter em mente que tecnologia não se transfere
e que educação e pesquisa são investimentos
e não despesas.
RC
- Como atender à demanda por profissionais na construção
civil, naval, industrial e outras, se o contingente de formação
não atende a expectativa?
CA
- Assegurando, através de um projeto de desenvolvimento nacional,
e digo projeto e não carta de intenções, um
desenvolvimento sustentável para a nação brasileira.
Como a Petrobras formou seus quadros a partir de 1953? Essa data
corresponde ao curso de engenharia de petróleo na Escola
Politécnica da Bahia. Como o ITA forneceu quadros para Embraer
e outras empresas? Como foi implantado o Pólo Petroquímico?
E a Caraíba Metais? Alguém já esqueceu do Ceped?
Há cadeias produtivas estruturantes que podem ter incentivos
para pesquisa e desenvolvimento. Na Bahia destacam-se as áreas
de: rochas ornamentais, construção naval, energias
alternativas, novos métodos construtivos, tecnologias limpas,
campos maduros e fármacos.
RC
- A evasão de profissionais para outros países, compromete
o desenvolvimento nacional?
CA - É evidente. Exemplos não faltam:
as evasões dos cientistas e engenheiros europeus no período
que precede a segunda guerra mundial até o pós-guerra
e durante a década de 1960 de engenheiros ingleses (60% dos
formados) para os Estados Unidos.
Os ingleses, como repuseram seus quadros? Recebendo cientistas e
engenheiros indianos e paquistaneses.
Faça uma comparação entre os Estados Unidos
e a Europa entre 1930 a 1970. Santiago Dantas, no final da década
de 1960, escreveu um artigo em que mostrava como a evasão
de cérebros dos países subdesenvolvidos ajudavam a
promover o desenvolvimento dos países desenvolvidos. Quanto
nos custa formar um profissional? Não é ótimo
para uma nação receber pessoas de alta qualificação
a custo zero? Mesmo hoje com toda política medievalista de
fechamento de fronteiras a Europa e a América do Norte continuam
recebendo profissionais qualificados.
Finalmente,
não posso deixar de expressar minha confiança no futuro
da profissão. A maioria dos produtos e métodos que
usamos hoje é posterior a segunda guerra mundial. Necessitamos
da criação da inventividade, da inovação
dos jovens colegas, pois a maioria dos produtos, processos e métodos
que serão utilizados daqui a 20 anos nem sequer foram construídos
ou elaborados.
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