Alvo de controvérsias, o Plano Diretor de Desenvolvimento
Urbano e Ambiental de Salvador (PDDUA) transformou-se numa questão
judicial. No início deste ano, o Centro de Apoio Operacional
às Promotorias de Cidadania do MP acatou representação
referente à restrita participação da sociedade
nas decisões do documento, cuja elaboração
está a cargo da Secretaria de Planejamento, Urbanismo
e Meio Ambiente (Seplam).
Encaminhada conjuntamente pela Associação de
Entidades Ambientalistas (Apedema), Federação
dos Bairros de Salvador (Fabs) e OAB-BA (Comissão de
Direitos Difusos e Coletivos), a reclamação acusa
a Prefeitura de excluir a população dos debates
que deveriam nortear as discussões e definições
de prioridades. "A legitimidade de qualquer Plano Diretor
está diretamente relacionada à sua eficácia
na solução dos problemas que atingem todas as
camadas da população. Do contrário, não
estaríamos falando de um projeto coletivo, mas de um
plano de interesses", alerta Marco Antonio Amigo, presidente
do Crea-BA.
Inicialmente, a Intervenção do Ministério
Público provocou alterações no cronograma
de audiências públicas para apresentação
de contribuições, previstas no Estatuto da Cidade,
lei federal de 2001. A presidente do inquérito civil,
promotora Cristina Seixas, também solicitou a apresentação
dos anexos, mapas e relatórios até aquele momento
não disponibilizados pela Seplam.
Com a cooperação técnica do Crea e demais
entidades, o MP manteve reuniões com integrantes de uma
comissão multidisciplinar - peritos com formação
em biologia, geologia, engenharia sanitária e ambientalistas
- com o intuito de avaliar as bases do documento. "Nosso
objetivo é que o Plano do Executivo, a ser encaminhado
para a Câmara dos Vereadores, seja o melhor possível",
assegurou a promotora.
FUNÇÃO SOCIAL QUESTIONADA
O arquiteto e urbanista Armando Branco critica a distorção
verificada na divulgação do texto preliminar,
elaborado num modelo de função territorial, com
valorização excessiva da ocupação
do solo. Ele cita estudos da Fundação Getúlio
Vargas que identificaram saúde, educação
e transportes como os maiores anseios da população
brasileira. "Numa cidade como Salvador, onde 80% dos moradores
são de baixa renda, é inadmissível que
a prefeitura esteja mais interessada em liberar gabaritos nas
áreas nobres para o capital imobiliário do que
buscar soluções como a construção
de hospitais e postos de saúde na periferia", acentua.
Diante de sua experiência em projetos realizados pelo
governo estadual no interior da Bahia, ele afirma que a administração
da capital tem uma visão retrógrada e o PD reflete
uma ideologia perversa de administração. Como
exemplo, ele cita o fato de uma região como Cajazeiras,
que tem uma população estimada em 250 mil habitantes,
não ter sido contemplada com ações específicas
no projeto. Ao mesmo tempo, diz que o documento prevê
a reativação do Plano Inclinado Pilar e a instalação
de outros dois ascensores, na Praça Castro Alves e em
Água de Meninos.
Quanto à dificuldade de acesso às pranchas anexas
à documentação, Armando Branco classifica
a postura da prefeitura como uma armadilha para impedir que
detalhes fundamentais sejam de conhecimento do cidadão
comum. "São cerca de 50 pranchas disponíveis
apenas na internet e cuja transformação em mapa
custa em torno de R$12. Isto exclue boa parte dos moradores
da cidade e expõe a falta de interesse da administração
municipal em receber contribuições", critica.
CARTA GEOTÉCNICA DA CIDADE
A inexistência de uma Carta Geotécnica da Cidade,
com características da geologia e diagnósticos
sobre as condições dos solos e das rochas, é
outra falha do Plano Diretor. A deficiência é apontada
pelo geólogo Renato Andrade, analista técnico
do Crea. Fundamental para a identificação de áreas
de risco, o documento permite a graduação dos
níveis de segurança habitacional de diferentes
pontos de Salvador e o planejamento adequado da intervenção
no meio físico. "Se estas variantes não forem
contempladas, o PD estará desconsiderando as peculiaridades
de cada local", lamenta. O presidente do Sindicato dos
Engenheiros da Bahia (Senge) lembra ainda que existem instrumentos
que poderiam auxiliar na elaboração de projetos
como o Plano Diretor de Mineração da Região
Metropolitana, concebido em 1992, e que contém dados
e mapas sobre as atividades de mineração no município.
Lembra também a necessidade de considerar a correta exploração
dos recursos hídricos subterrâneos, amplamente
utilizados pela população e que apresentam altos
níveis de contaminação. Para o geólogo,
é indispensável a demarcação das
áreas de preservação ambiental, fundamentais
para a manutenção da qualidade de vida na cidade.
TECNICISMO E MERCADO IMOBILIÁRIO
O arquiteto e deputado estadual Javier Alfaya (PC do B-BA)
não questiona apenas a insuficiência dos debates
populares, mas a forma como as raras discussões vêm
sendo conduzidas junto às comunidades de bairro. "Estão
abusando do uso de termos técnicos, de difícil
compreensão para a maioria das pessoas", criticou.
Segundo Alfaya, a população não tem como
opinar sobre algo que sequer compreende.
Na avaliação do deputado, o documento elaborado
pela equipe coordenada pela Seplam favorece o jogo do mercado
imobiliário. Alfaya lista projetos cujos edifícios
de vários andares serão construídos entre
o Porto da Barra e Stella Maris, principalmente no trecho entre
o Largo da Mariquita e a Avenida Orlando Gomes, desrespeitando
o gabarito da Orla. "O plano também não tratou
de assuntos fundamentais, como a histórica concentração
de terrenos urbanos como bens de antigas famílias baianas
em bairros oriundos de propriedades rurais, como Engenho Velho,
Fazenda Garcia e Avenida Paralela". Segundo ele, a maioria
destas áreas, além de não ter uso produtivo,
não pode ser habitada pelas famílias de baixa
renda, que, conseqüentemente, são empurradas para
as localidades de risco.
POSIÇÃO DA SEPLAM
O titular da Seplam, arquiteto Manoel Lorenzo, coordenador
do projeto, rebate as acusações, alegando que
os 210 artigos da versão preliminar do PD estão
baseados em mais de 40 estudos setoriais. "O plano apresenta
uma proposta de desenvolvimento global, com bases sustentáveis,
para a cidade nos próximos 15 anos", argumenta Lorenzo.
Quanto às críticas de que a administração
municipal não contou com intervenção e
participação dos setores da comunidade, como prevê
a legislação, ele lista as raras reuniões
nas quais o projeto foi apresentado aos membros do Conselho
Municipal de Desenvolvimento Urbano (Condurb).
O órgão atua como conselho consultivo, sendo
integrado por representantes da Conder, Arquidiocese de Salvador,
Ufba, Iphan, IGHB, Associação Comercial da Bahia,
ABI, CDL, IAB, Ademi, Sociedade Amigos da Cidade, Clube de Engenharia,
Rotary Clube e Lions Clube. "O grande desafio é
atender à população com uma receita per
capita que é a menor entre as dez principais capitais
do País", enfatizou Graça Torreão,
coordenadora central de Planejamento e Desenvolvimento Urbano.
ESTATUTO DA CIDADE
A Lei 10.257/01, promulgada em 10 de julho de 2001, veio preencher
esta lacuna, objetivando promover o planejamento urbano de forma
sustentável, através da melhoria da qualidade
de vida da população nas cidades com mais de 20
mil habitantes. A Lei estabeleceu o conteúdo mínimo
do plano diretor, incluindo um sistema de acompanhamento e controle.
Determinou meios para a gestão democrática da
cidade sobre a aplicação dos instrumentos previstos
na Constituição, visando ao cumprimento da função
social da propriedade urbana.